‘Ler Clarice Lispector em público é das coisas mais corajosas e estonteantes que existem’

Patrícia Lino anda há mais de dois anos a divulgar Clarice Lispector aos portugueses, através do seu Projecto Clarice. Em entrevista ao portal Ave Rara, Patrícia Lino traça a evolução e futuro do projecto, explica o que a continua a motivar e alguns dos momentos que tem vivido com o mesmo

O Projecto Clarice surgiu associado a uma cadeira da Faculdade – Métodos e Técnicas de Pesquisa -, mas entretanto pode dizer-se que ‘ultrapassou’ este propósito. Em primeiro lugar, que nota tiveste nesta cadeira?

Sim, de facto, o Projecto Clarice começou por surgir associado à disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa, embora nunca tenha correspondido àquilo que era exigido pelos critérios de avaliação. Isto é, a disciplina pedia um trabalho escrito final, que expusesse, de forma clara, um esqueleto para um possível ensaio. Escolhi como objecto de análise alguns contos de Clarice Lispector sem conseguir, no fundo, analisá-los; mas, mesmo antes de começar a escrever a parte que me era exigida, parti para aquilo que depois vim a entregar também, ainda que como extra. Fui avaliada com 18 valores.

O que te motivou a continuar o projecto?

Continuei, mesmo quando a disciplina acabou, porque o meu objectivo já não era mais desenvolver um pequeno trabalho a entregar no fim do semestre, mas divulgar Clarice Lispector. Ao ver que aquilo que faço até hoje traz resultados, a regra é simples: não podia nem posso parar.

clarice 01

Pelo seu mediatismo, o Projecto Clarice tem sido muito bem sucedido. Ao nível do seu propósito, de divulgar a obra de Clarice Lispector, como o avalias?

O Projecto Clarice tem cumprido, felizmente, os objectivos a que me propus desde o início. O projecto surge da procura de várias formas de comunicação que têm uma só finalidade: fazer com que as pessoas leiam Lispector e, se já a lêem, fazer com que a leiam mais. Para isso, desenho para aqueles que preferem os traços, leio para aqueles que gostam de ouvir, desenho e filmo para aqueles que precisam  de ver, e vou falando com todos eles e também com aqueles que não gostam de nenhuma destas coisas que referi. É um projecto multifacetado, mas podia sê-lo de forma muito mais desenvolvida, se eu pudesse dedicar-me somente a ele.

Achas que se pode falar num período Pré-Projecto Clarice e noutro Pós-Projecto Clarice, no relacionamento dos portugueses com a obra de Clarice Lispector?

É curioso porque não sei como responder a esta questão. Tenho consciência de ter conseguido pôr muita gente a ler Clarice Lispector. Tenho também a noção de que essa mesma gente representa todas as faxas etárias possíveis, dos 8 aos 90. Contudo, não sei se marquei ainda toda essa diferença, a ponto de aplicarmos essas duas designações. Nem trabalho a procurá-las.

“PRECISO MOSTRAR ÀQUELES QUE NÃO PODEM VER COMO É BONITO ISTO DE SAIR À RUA PARA FALAR COM TODA A GENTE DE LIVROS”

Ainda neste sentido, e tendo em conta, por um lado, os hábitos de leitura e níveis de literacia dos portugueses, e por outro, o carácter misterioso, enigmático e exótico de Clarice Lispector e da sua escrita, acreditas que a autora ‘ganhou’ novos leitores em Portugal?

Quando me dirijo a algumas escolas para lhes levar Clarice, a primeira pergunta que coloco aos alunos é: “Quem é que aqui lê?”, e, regra geral, são muito poucos os braços no ar. E isto não só acontece nas escolas como em outros lugares. A maioria das pessoas não lê; é um dado adquirido. Mas isso é perfeitamente contornável. A Clarice tem, como bem o escreves, todo esse lado misterioso e foi, muitas vezes, acusada de hermetismo (conceito que ela própria renegava). Mas é precisamente essa ponta de mistério e exotismo que deixa aqueles que não levantam o braço no início, a quererem fazê-lo mais tarde. Ler Clarice em público é das coisas mais  corajosas e estonteantes que existem. Sentimos os olhos daqueles que nos ouvem mudar e sabemos que nem nós nem eles sairemos dali como entramos; outro dado adquirido.

O Projecto Clarice tem sabido aproveitar diversas plataformas: vídeo; blogue; desenho; artes gráficas; curtas-metragens; entre outros. Pensas chegar a alguma nova plataforma ou, mesmo numa das já desenvolvidas, aprofundá-la? (Por exemplo, o blogue originar um livro ou uma curta uma longa-metragem?).

Pretendo, em primeiro lugar, melhorar as curtas-metragens: foram as duas primeiras curtas-metragens que alguma vez fiz. Quero, a par disso, filmar mais. Tenho muitas ideias e pouco tempo. Pretendo continuar a desenhar Clarice, porque o lápis não se cansa. E assim que tiver tempo, saírei de novo com mais citações claricianas para espalhar pela cidade (quem sabe, se não por outras cidades que não o Porto…). Os vídeos e as artes gráficas chegam-me sempre como o meio de divulgar as coisas anteriores. Num livro, nunca havia pensado. Numa longa-metragem, nomeadamente num documentário, confesso que já. Preciso mostrar àqueles que não podem ver como é bonito isto de sair à rua para falar com toda a gente de livros.

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Como esperas que esteja o Projecto Clarice daqui a 5 anos?

Espero conseguir ir ao Brasil e fazer tudo isto lá. No momento presente, no que toca ao Projecto Clarice, é o que mais quero.

Qual o saldo que fazes do projecto?

Quando comecei o Projecto Clarice, não estava, de modo nenhum, conseguir o que consegui hoje. Importa referir que recebo cartas, e-mails, livros e todos os tipos de encomendas de todos os cantos do mundo, e também pedidos de autorização para prolongarem, nos países deles, a minha ideia. Ao acreditar que sair à rua para falar do meu amor com os outros, consegui que alguns também acreditassem. E não há coisa mais feliz do que, hoje, dois anos depois, continuar a ler “Muito obrigada, Patrícia, por aquele dia em que me encontraste na rua”. Não estava à espera que divulgassem o meu trabalho em todos os lugares que divulgaram. O Projecto Clarice não tem nada, até hoje, que me desaponte. Só me tem dado alegrias.

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