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Uma das novas realidades da China moderna [são] as viagens. De comboio ou de autocarro, em percursos de milhares de quilómetros durante dezenas de horas, os trabalhadores chineses movem-se.
[…]
Comecei por ir de Xangai a Chongqing, 32 horas de comboio, para percorrer 1722 quilómetros. Como sempre, as carruagens estavam cheias. Tudo esgotado. Na China, está sempre tudo esgotado. Há multidões em qualquer lugar, seja numa loja, num restaurante ou numa bilheteira. É sempre preciso enfrentar a confusão, a algazarra, a agressividade, a claustrofobia. Enfrentar os outros.
No comboio para Chongqing, há beliches de seis pessoas por compartimento, minúsculo. Mas muita gente compra bilhete de pé e deita-se pelos corredores, ou onde pode. Vão todos em cima uns dos outros, mas ninguém se queixa. Há cabeças a dormir em ombros desconhecidos, cotovelos e pés irrompendo pelas cabeças do vizinho ou derrubando o recipiente de massa com carne de porco de confessão instantânea. […] Dir-se-ia que, de propósito para aumentar a confusão, as pessoas passam a interminável viagem a comer e a deslocar-se de um lado para o outro.

Paulo Moura, em grande reportagem pela China, revista Pública

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