#11

Em Liquan, decidi fazer a viagem de autocarro para o Sul. […] 1500 quilómetros de distância. Duração prevista da viagem: 21 horas. Na realidade, seriam 27. Era um autocarro velho, com bancos muito desconfortáveis, cor-de-rosa gasto, sujos. Os bilhetes sentados esgotaram rapidamente e foram vendidos mais umas dezenas de pé. Antes da partida, houve discussões e gritos, até todos estarem nos seus lugares e as bagagens arrumadas.

Mal arrancámos, começou a saga dos vomitados. A maioria destas pessoas não está habituada a andar de carro e fica enjoada à primeira curva. E a estrada tem muitas curvas. […] No meio do corredor, havia um balde para o vómito e para os escarros. Na China escarrar é um hábito nacional. É um sinal de virilidade para os homens fazê-lo com muito ruído e espalhafato. O balde tinha grande solicitação e cedo deixou de chegar para as encomendas. Dois homens escarraram de seguida, uma mulher pôs o filho a urinar no balde e quando uma outra veio vomitar já não havia tempo. Foi mesmo no chão. A partir daí, acabaram os escrúpulos. O balde estava cheio e dançava de um lado para o outro, mas a maior parte da expectoração e do vomitado ia parar ao tapete.

Durante toda a noite, as pessoas andaram descalças no autocarro. Dormiram umas por cima das outras, chapinharam nos dejectos. De três em três horas, parávamos numa espécie de estação de serviço na estrada, para comer e ir à casa de banho. As latrinas eram colectivas e imundas, os restaurantes serviam um único prato, geralmente massa com carne, ou melhor, alguns ossos mergulhados no molho. As pessoas chupam os ossos e atiram-nos para o chão ou para cima da mesa. O cliente seguinte senta-se e coloca o seu prato entre os ossos cuspidos pelo cliente anterior.

Os funcionários do autocarro chamam, para seguir viagem. Há o condutor, um revisor e uma espécie de capataz. Todos gritam para os passageiros, ralham com eles, dão ordens como se lidassem, não com clientes, mas com escravos. Estamos num navio negreiro. As pessoas são tratadas como gado, mas não protestam, seguem de olhos assustados, a caminho do Sul.

Paulo Moura, em grande reportagem pela China, revista Pública

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