#15

Manuel António Pina era também um extraordinário conversador. Ouvi-lo ir saltitando de assunto para assunto, segundo associações que obedeciam a uma desconcertante mas rigorosa lógica interna, era um verdadeiro prazer, desde que o interlocutor não acalentasse demasiadas ambições em manter um diálogo convencional. Quando se preparasse para responder a uma observação sobre a poesia de Szymborska, de quem Pina, com a sua incrível memória, acabara porventura de citar uma fiada de versos, já a conversa ia no cinema, e daí podia saltar para a física quântica, e depois para o futebol, e o futebol lembrava-lhe uma tirada da sua empregada Conceição, e como Conceição é uma estrénua defensora dos gatos abandonados e Szymborska tem um belíssimo poema (que Pina aliás traduziu) sobre um gato que fica abandonado num apartamento quando o seu dono morre, havia ali uma aberta em que a coisa podia voltar ao tópico original. Ou não.

Luís Miguel Queirós, reportagem sobre Manuel António Pina, no suplemento cultural Ipsilon

duty of response

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s