#29

Gostamos do insólito, do drama, do fenómeno surpreendente. Há dificuldade em representar os rituais, a tessitura dos dias, os dias que passam porque passam. Queremos o preto e branco. O dia e a noite. Não valorizamos o movimento que nos leva do dia para a noite. E no entanto, é essa dinâmica, o exacto momento quando o dia se transforma em noite, que é difícil de perceber e representar.

Por que é que tendemos a valorizar a efervescência, o drama, o desastre? Em grande parte porque associamos estas ideias a estar verdadeiramente vivo. A uma existência excitante, intensa, plena. Há pessoas que vivem sempre assim, num constante fluxo de altos e baixos diário, procurando estímulos exteriores que possam suprir o seu vazio interior.

É como se desejassem viver em constante estado de paixão (política, artística, afectiva), mas na maior parte das vezes não estão preparadas para a inevitável desilusão que a paixão acarreta.

[…]

O contrário disso é saltar de paixão em paixão. É o movimento pelo movimento. A mudança pela mudança. É acordar de manhã e querer que todos os dias sejam excepcionais e diferentes uns dos outros. Com casamentos. Nascimentos. Mortes. Prémios. Dramas. Paixões à primeira vista. E nesse movimento constante nem nos apercebemos de que aquele dia vai ser realmente diferente de todos os outros. Porque todos o são. Uma verdade tão simples e elementar que só pode ser difícil de representar.

Vítor Belancino, revista P2

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