book review #3: Venedikt Erofeev ‘De Moscovo a Petuchki’

Se andar de comboio, leia este livro

erofeev

«De Moscovo a Petuchki» tem como subtítulo “A Lucidez de um Alcoólico Genial”, mas este poderia ser outros: “A Embriaguez de um Escritor Genial”; “Comboio de Vodka aos Subúrbios da Alma Humana” ou até “De Petscovo a Moscuchki” (ler de forma arrastada s.f.f.).
De facto, nesta obra escrita entre 1964 e 1969, Venedikt Erofeev empreende uma aventura digna de nota: ao longo de 140 páginas e outros tantos quilómetros, conta o seu périplo de comboio entre a capital russa e a vila de Petuchki, lugar com “as ruas exageradamente largas, as casas terrivelmente grandes”.
Porém, tal como Venitchka explica: “[é] sempre assim depois de uma bebedeira pesada e longa […] tudo aumenta de tamanho com a ressaca, tal como tudo parece insignificante quando se está bêbedo”.
Venedikt Eroffeev sabia do que falava, afinal de contas o autor consegue a proeza de mencionar 11 tipos diferentes de vodka, para além das referências a cerveja, iorsh (mistura de aguardente e cerveja) e vinho a martelo.
Em «De Moscovo a Petuchki» Venitchka é o próprio Erofeev: gole a gole vai contando a estória da sua vida, desde que em tenra idade ganhou o vício de beber, até aos dias em que divaga pelas ruas, umas vezes à espera pela abertura da loja de bebidas, outras à procura de um lugar para se aquecer de noite.
O mais interessante desta obra do escritor russo é mesmo o humanismo e a fragilidade assumidos pelo personagem principal. Herói ou Anti-Herói, Venitchka é simultaneamente trágico mas honesto, cómico mas maldito.
Ninguém gostaria de estar na pele de Venia: a tremer, com náuseas e vómitos, sem comida no estômago, o personagem tem uma missão a cumprir, chegar a Petuchki, onde espera “encontra a sua salvação e alegria”.
No entanto, esta ilusão do destino mascarada de paraíso é o leitmotiv para Venia empreender uma viagem que tem todos os condimentos para o fracasso.
Ainda em Moscovo, cidade percorrida pelo personagem “milhares de vezes, com os copos ou ressacado […], de norte a sul, de ocidente a oriente, de um extremo ao outro”, Venia admite que nunca viu o Kremlin, no momento em que se confessa incapacitado para partir.
Felizmente Venia parte e com ele nos leva neste périplo em que se confirma que a habilidade de Erofeev para beber é igual à sua genialidade para escrever.

Pontuação final: 4+
1 [a evitar] | 2 [fraco] | 3 [suficiente] | 4 [bom] | 5 [obra-prima]

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