‘O Didgeridoo feito por rolo de papel é um concorrente sério dos restantes materiais’

Rodrigo Viterbo, 30 anos, nasceu e cresceu no Porto, é construtor, músico e professor de Didgeridoo. Na semana em que se realiza a 9ª edição do Festival Didgeridoo (entre 1 e 3 de Setembro de 2011, em Ameixial, Loulé, no Algarve), o portal Ave Rara tem o prazer de dar a conhecer o inventor mundial de Didgeridoos feitos a partir de rolo de papel.

Descreves-te como um construtor, músico, professor e entusiasta de Didgeridoo. Como começou este teu fascínio por um instrumento cuja história remonta à dos aborígenes australianos?

No Porto 2001 assisti a um espetáculo de novo circo em que um dos palhaços, no caso interpretado pelo Osga dos Mu, tocava vários instrumentos sendo que um deles era o didgeridoo, fiquei logo encantado com o som do instrumento.

Como construtor, quais os principais desafios que se te colocam na construção deste instrumento?

A afinação, a qualidade de som e de construção são os fatores principais num instrumento musical, é nesse sentido que eu direciono o meu trabalho. Há muita informação dispersa e autodidata sobre construção de didgeridoos mas muita coisa tem ainda de ser testada.

Quanto tempo se leva, em média, a construir um Didgeridoo?

Por causa das colagens e acabamentos não se consegue fazer um didgeridoo em apenas um dia mas habitualmente entre três a cinco dias é o tempo normal de construção de um instrumento.

A IDEIA DE CONSTRUIR DIDGERIDOOS A PARTIR DE ROLOS DE PAPEL HIGIÉNICO SURGIU NUM MOMENTO EM QUE DEIXEI DE TER CONDIÇÕES PARA MANTER A OFICINA DE CONSTRUÇÃO

Quanto custa comprar um Didgeridoo?

O preço de um didgeridoo depende do material em que é feito, da complexidade da sua construção, da gama em que se situa. Um didgeridoo de base de gama custará até cerca de 75 euros, entre os 100 e os 400 euros já se compram instrumentos de qualidade média que permitem uma boa evolução na aprendizagem, instrumentos tradicionais ou mais especiais podem chegar aos 1000 ou 1500 euros.

viterbo didgeridoo 01

Pode dizer-se que foste o primeiro criador de Didgeridoo feito a partir de rolos de papel?

Sim, tanto quanto sei fui a primeira pessoa a usar os rolos de papel higiénico como base de construção para didgeridoos, já havia experiências com tubos de cartão e com papier maché mas não desta forma e com esta complexidade.

Como te surgiu esta ideia e quais as características deste tipo de Didgeridoo?

Como a maior parte das boas ideias esta surgiu em tempos difíceis, num momento em que deixei de ter condições para manter a oficina de construção de didgeridoos, onde fazia didgeridoos de madeira, vi-me obrigado a procurar uma forma de construção alternativa que me permitisse controlar a forma do instrumento, dar-lhe uma boa estrutura e em que não precisasse de recorrer a técnicas oficinais. O trabalho com papel permite tudo isto e quando é bem executado é um concorrente sério dos restantes materiais.

COMEÇAM A SER PROVADOS OS BENEFÍCIOS DE TOCAR DIDGERIDOO PARA PESSOAS QUE SOFREM DE APNEIA DO SONO, GAGUEZ E OUTRAS PERTURBAÇÕES

São melhores ou piores que os instrumentos feitos de madeira?

Há uma artesã em Inglaterra a construir harpas de cartão, o importante no didgeridoo é a sua forma e a qualidade de construção. Dito isto é fácil de perceber que não há materiais melhores ou piores. O meu didgeridoo preferido é de papel e no DIDGeVENT, festival de didgeridoo em Berlim onde estive este ano, foi muito elogiado por vários músicos profissionais de didgeridoo.

Com que outros materiais ‘alternativos’ pensas construir Didgeridoos?

Estamos neste momento a fazer história com o didgeridoo. Só há poucas dezenas de anos é que este instrumento se popularizou fora da Austrália: enquanto que as guitarras, pianos, violinos e os restantes instrumentos mais conhecidos são hoje o resultado de centenas de anos de desenvolvimento, o didgeridoo está neste momento a dar os primeiros passos no desenvolvimento enquanto instrumento musical devidamente afinado e com técnicas sofisticadas de construção. Mais do que experimentar materiais alternativos interessa-me trabalhar estas questões mas admito que tenho curiosidade em trabalhar com a cortiça.

Organizas workshops e dás aulas a quem queira aprender a tocar este instrumento. Como correm as aulas? Quais são normalmente as expectativas das pessoas que te procuram?

O didgeridoo é um mero ressoador daquilo que fazemos com o sistema diafragma-laringe-cordas vocais-palato mole-língua-maxilar-bochechas-lábios. Através de movimentos específicos de cada um destes órgãos produzem-se diferentes sons no didgeridoo. Nas aulas ensino aos meus alunos as técnicas básicas para tocar didgeridoo: a nota fundamental, a modelação dos harmónicos, os vocalizos e as notas tipo trompete. Há uma primeira fase de procura e aperfeiçoamento destas técnicas e numa segunda fase ensino as diferentes formas de respiração circular, técnica que consiste em inspirar ao mesmo tempo que se mantém o som do didgeridoo. Por fim há uma integração das possibilidades do didgeridoo na individualidade de cada aluno. Por todo o trabalho de respiração e até relaxamento do didgeridoo sou procurado por pessoas de todas as áreas como músicos, professores, curiosos, crianças, pessoas que querem usar o didgeridoo como um complemento para a terapia da fala que já fazem e pessoas com problemas respiratórios, começam a ser provados os benefícios de tocar didgeridoo para pessoas que sofrem de apneia do sono, gaguez e outras perturbações.

NA 9ª EDIÇÃO DO FESTIVAL DIDGERIDOO OS NOMES INTERNACIONAIS SÃO FORTÍSSIMOS: RAMM CONTA COM MT-YIDAKI NO DIDGERIDOO COM INFLUÊNCIAS DO ESTILO TRADICIONAL E DA PERCUSSÃO AFRICANA

Como tem sido a evolução da utilização deste instrumento no nosso país?

Quando comecei a tocar, há 10 anos atrás, havia poucos músicos de didgeridoo, poucas bandas o utilizavam e não havia nenhuma banda dedicada. Hoje em dia há centenas de músicos e dezenas de construtores e pessoas que dão workshops. Há já várias bandas em todo o país que utilizam o didgeridoo como instrumento central.

Como achas que poderá evoluir o relacionamento do Didgeridoo com os portugueses?

Em 2006 fundámos a Associação Portuguesa de Digeridoo e criámos a Residência de Didgeridoo, uma ação de formação intensiva na qual 30 pessoas podiam aprender e conviver durante três dias com três dos melhores músicos europeus de didgeridoo. Este foi o primeiro grande passo para o crescimento do didgeridoo em Portugal, tanto pela aproximação que se criou entre estas pessoas como por todo o trabalho que começaram a desenvolver depois desta experiência. Desde esse ano todo o trabalho destas pessoas, de outras que se juntaram entretanto, as várias Residências de Didgeridoo e os vários Festivais de Didgeridoo e outras atividades que vão surgindo têm contribuido para um crescimento do panorama nacional e acredito que continuamos em expansão sendo até cada vez mais reconhecidos por países como França, Alemanha e Inglaterra que são muito fortes no didgeridoo.

viterbo didgeridoo 02

Entre 1 e 3 de Setembro, realiza-se a 9ª edição do Festival Didgeridoo. De acordo com o cartaz e actividades, o que gostarias de destacar e aconselhar?

Os nomes internacionais são fortíssimos: RAMM conta com Mt-Yidaki no didgeridoo com influências do estilo tradicional e também da percussão africana, este foi um dos primeiros professores que trouxemos a Portugal e vale a pena ouvir e fazer o workshop com ele, o francês Zalem também está com uma sonoridade muito forte e invulgar, o Carlo Cattano tem uma musicalidade muito grande na sua execução e o Marcos Andreu que tem um conhecimento muito grande do estilo tradicional. Nas bandas nacionais haverá TEKA e O Som da Terra em dois estilos completamente opostos. Com os workshops e todas as atividades, as tendinhas alternativas, o calor do Algarve e todos os amigos que por lá se juntam vai ser mais um grande festival.

Tens previsto algum workshop ou curso para os próximos tempos? Quando e onde?

Estão a ser constantemente programados workshops e concertos, tanto a solo como com a minha banda DIDGEnBASS, para quem quiser ir estando a par recomendo uma visita ao site http://www.didgetc.com onde vou atualizando toda esta informação.

Quero aproveitar para agradecer ao Ave Rara pela entrevista e também a toda a minha família, amigos e colegas que me têm acompanhado ao longo destes anos e também ao povo Aborígene Australiano, ou Yolngu como se designam, por terem partilhado connosco este instrumento fantástico.

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