Cultura portuguesa em destaque na Macedónia

O auditório da Faculdade de Arte Dramática da Universidade de Skopje encheu no decorrer do Unifest Skopje 2010, Festival de Teatro Universitário, e que contou com a apresentação da peça “Txernodrínski regressa a casa” levada a cabo pelos alunos do curso de Língua Portuguesa da Faculdade de Filologia da mesma universidade

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O que a distância separa, a cultura tem o poder de aproximar. Lisboa e Skopje (capital da República da Macedónia) encontram-se estremadas por mais de 3500 quilómetros mas no passado dia 29 de Abril confundiram-se como gémeas. Em causa, a peça de teatro “Txernodrínski regressa a casa”, escrita por Goran Stefanovski, escritor dramático contemporâneo macedónio, e posta em cena pelo grupo de teatro “Camões”, composto por alunos do curso de Língua Portuguesa da Faculdade de Filologia “Blaze Koneski” da Universidade de Skopje.

“Este ano optámos por um escritor macedónio”, justifica a professora responsável pelo curso, Aneta Manevska, depois de, no primeiro ano lectivo, em 2007-2008, a peça ter sido “tipo collage (divertida e educativa), em que fizemos uma viagem no tempo, até ao século XV, retratando os mais importantes momentos e personagens da história luso-brasileira – Fernando Pessoa, Luís Vaz de Camões, Amália, Infante Dom Henrique, Dom Pedro, entre outros”, e de, no ano passado, “termos posto em cena uma adaptação da peça ‘A Noite’ de José Saramago”.

Ensaiada ao longo de “mais ou menos dois meses”, conforme explica a leitora de Língua Portuguesa, a peça foi traduzida para português e é “composta por 14 cenas independentes, que fazem um círculo, evocando a personagem de Vóidan Txernodrínski, o fundador do drama e teatro macedónios”. A dar corpo aos personagens, sete actores amadores apaixonados pela cultura portuguesa: “três alunos do primeiro ano do curso, três estudantes que já concluíram os seus estudos de português e o meu filho, que faz parte do grupo de teatro desde o início”, indica Aneta Manevska.

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Tome Stankovski, aluno do terceiro ano do curso de Língua e Cultura Russa, encarna quatro dos personagens e explica que “decidi aprender português este ano. A maioria dos meus colegas optou por estudar espanhol, mas eu tive mais interesse pela língua portuguesa”. De acordo com o estudante de 23 anos, “em primeiro lugar, gosto da vossa bandeira”, sendo que “quando vejo futebol, apoio sempre Portugal nos europeus e mundiais em que participa”, justifica.

Não obstante, Tome Stankovski revela que “gosto bastante de ver documentários sobre Portugal e adorei o filme ‘Capitães de Abril’, sobre a revolução dos cravos”. No entanto, o destaque deste jovem que nasceu e cresceu em Skopkje é o Fado, “que oiço quando quero relaxar”, opinião que, de resto, é partilhada pelos restantes actores.

Igualmente originária de Skopje, Donka Matevska sublinha que “o Fado é a principal razão por que gosto de Portugal”. Licenciada em Língua e Cultura Italiana, a jovem de 23 anos declara que “comecei a estudar português no terceiro ano do curso. Na altura, não sabia muito sobre Portugal, mas acabei por me apaixonar pela forma como soava a linguagem”.

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No que toca à expressão maior da música nacional, Donka Matevska esclarece que “o Fado entra-me na alma e é impossível ficar indiferente”. Actualmente a frequentar o segundo ano do curso de Fisioterapia, a actriz assume: “adoro representar, mas a minha esperança é trabalhar nesta área visto que ser actriz na Macedónia não é uma profissão próspera”.

Passagem pelo Brasil

No caso de Kristina Miladinova, proveniente de Štip, cidade com 47 mil habitantes situada na zona leste deste país dos Balcãs, o seu interesse pela língua de Camões surgiu pelo “gosto pela cultura dos países mediterrânicos”. “Quando iniciei o curso não sabia nenhuma palavra em português mas adorei desde a primeira aula”, justifica a também estudante de Língua e Cultura Italiana. Com o objectivo de trabalhar com “algo relacionado com línguas, como intérprete, professora ou guia turística”, a jovem de 21 anos elege Fernando Pessoa como referência principal da cultura portuguesa.

No caso de Jana Gjorgjievska, actriz de 19 anos que assumiu o papel de três personagens na peça, para além do Fado, salienta que “o que me motivou a frequentar o curso de Língua Portuguesa foi o facto de que na Macedónia não há muita gente que fale português”. Com naturalidade, muito deste entusiasmo é o reflexo do arrebatamento, inspiração e dedicação de Aneta Manevska.

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A sua história de vida cruza a infância passada em Skopje com a passagem por Brasília aos 18 anos, “onde os meus pais foram embaixadores da ex-Jugoslávia”. “Entre 1986 e 1987 vivi no Brasil, onde estudei na Universidade de Brasília”, indica. Conforme revela a professora do curso de Língua Portuguesa, “apaixonei-me pela língua e há mais de 20 anos que me ocupo dela das mais variadas formas: fazendo leituras, pesquisas, como tradutora literária (traduzi Pedro Tamen, Rosa Alice Branco, Ana Hatterly, Paulo Teixeira, Horácio Costa, entre outros), intérprete, como professora numa escola de línguas e, desde 2007, como leitora na Faculdade de Filologia”.

Formada em Língua Macedónia com Língua e Literatura Italianas nesta mesma instituição, Aneta Manevska realizou ainda uma pós-graduação à distância em “Cultura Portuguesa Contemporânea”, oferecida pelo Instituto Camões em conjunto com a Universidade Nova de Lisboa.

No que toca ao Instituto Camões, a professora acentua o apoio prestado para o lançamento do curso, “o primeiro e até agora único curso de Língua Portuguesa de nível universitário na República da Macedónia”: constituindo-se como o “resultado da cooperação entre a Faculdade de Filologia e o Instituto Camões , o curso de três anos estava previsto no programa da faculdade desde 1996, mas foi apenas há três anos atrás que se concretizou e como curso de dois anos”.

Não obstante, Aneta Manevska menciona que “em 2008, o Instituto Camões enviou um considerável número de material – livros de ensino, históricos, dicionários, enciclopédias, romances, poesia, dramas e revistas”.

Portugueses na assistência

O resultado está à vista. A introdução do curso “entusiasmou os estudantes” de tal forma que “foi mesmo uma surpresa para todos”, analisa a responsável. “Para além de verificarmos que a procura tem aumentado, os alunos estão a adorar, têm participado de uma forma activa e exprimiram muitas vezes o desejo de que o curso cresça a um nível de estudos de três anos”.

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Um dos exemplos é dado pela estudante Kristina Miladinova: “como se não bastassem as aulas, começámos a organizar as ‘Noites Portuguesas’, em que nos juntamos para comer e beber segundo os hábitos portugueses”. Como consequência, a apresentação da peça de teatro encheu a plateia da Faculdade de Arte Dramática da Universidade de Skopje.

Entre a audiência, contavam-se dois portugueses que se encontram em Skopje ao abrigo do Serviço Voluntário Europeu. Tiago Cardona, 22 anos, destaca a “importância do evento, tanto para revelar a nossa língua como também para incentivar mais pessoas a interessarem-se pela cultura portuguesa”, enquanto Carolina Nunes, de 30 anos, releva a “performance fenomenal dos actores”, numa peça “bem construída” e cuja “simplicidade de cenários conferiu grande dinâmica” no decorrer da performance. Ainda segundo a voluntária de Sintra, “é engraçado estar fora de Portugal e encontrar quem se interesse pela língua e cultura do meu país. Faz-me querer mostrar mais daquilo que é Portugal”.

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Do lado dos estudantes-actores, palavras como sucesso e êxito acompanham os sentimentos de boa disposição e de dever cumprido. “A audiência riu e aplaudiu com sinceridade a nossa actuação”, introduz Tome Stankovski. O jovem de 23 anos realça que “no final da peça vimos bastantes caras felizes, o que foi bastante significativo para todos nós”.

No caso de Donka Matevska, a actriz destaca que “o facto de actuar em português foi um desafio que me divertiu bastante. Estamos bastante orgulhosos e contentes e acredito que, no futuro, seremos ainda mais profissionais e criativos, de forma a representar ainda de melhor forma a cultura portuguesa”. No que toca a Aneta Manevska, a professora frisa o contentamento pelo “crescimento face ao ano passado” e conclui endereçando “parabéns aos estudantes”.

* Fotos da autoria de Carolina Nunes

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