Vamos jogar à Arquitectura

Caso este artigo tivesse banda-sonora, seria com toda a certeza da famigerada música que acompanhou muitos dos que começaram a jogar, em final dos anos 80 do passado século, o principal jogo do Game Boy e que passo a trautear: tin, tin tin tin, tun tun tun, tin tin tin, tun tun tun, tin tin tin, tin tin tun tun; tun, tun tun tin tun tun tun, tun tun tin tun tun tun, tun tun tin tin tin tun tun. E não mais terminava, ininterrupta, até que o ecrã se enchesse dos cinco tetraminós – o tetraminó é uma peça formada por quatro quadrados idênticos, dispostos segundo a regra dos poliminós, a qual se baseia numa figura geométrica plana formada por quadrados iguais, conectados entre si de modo que pelo menos um lado de cada quadrado coincida com um lado de outro quadrado. Sim, é esta a lógica do Tetris (pelo ensaio da banda-sonora trauteada já lá tinham chegado, certo?). E sim, é esta a lógica do Sky Village, o mais recente projecto dos ateliers MVRDV, de Roterdão, Holanda, e Adept Architects, Copenhaga, Dinamarca.

Amontoado de pixeis

Anunciado como vencedor da competição “Rødovre Skyscraper”, promovido pela autarquia de Rødovre, cidade dos arredores da capital dinamarquesa, o Sky Village tem a alcunha de Tetris e baseia-se numa torre com 116 metros de altura que acomoda uma série de valências imobiliárias: apartamentos; hotel; lojas; escritórios; parque de estacionamento e parque público. De acordo com a memória descritiva a que a Traço teve acesso, “o empreendimento pretende responder aos desafios da actualidade, caracterizada pela instabilidade nos mercados imobiliários”. Desta feita, o edifício projectado constitui-se como um “amontoado de pixeis”, continua a memória descritiva, “cada qual com cerca de 61 metros quadrados [7,8 por 7,8 metros por unidade], que se encontram dispostos à volta do núcleo central do edifício”. Esta opção surge porque “a constelação de pixeis permitem flexibilidade e funcionalidade, podendo o edifício transformar-se conforme as necessidades do mercado”. Por conseguinte, através de uma grelha flexível, é possível alterar o programa e a distribuição dos pixeis, respondendo às necessidades que o mercado tem no momento. Com facilidade, um escritório pode ser transformado numa habitação, e vice-versa, assim como as mais pequenas unidades têm capacidade para se transformarem em grandes unidades, e vice-versa. Tal como sublinha o documento enviado pela MVRDV, “a flexibilidade e funcionalidade para a adaptação são as características mais salientes do empreendimento”. Necessidades de ocupação O núcleo central, dividido em quatro núcleos individuais, cada qual servindo os apartamentos, os escritórios, hotel e lojas, dispõe de um corredor que circunda todos estes núcleos, permitindo a composição desejada. Não obstante, “como um elevador, uma estrutura vertical percorre os 116 metros de altura como espinha do edifício e adapta os pixeis, juntando-os e separando-os, conforme o necessário”. O resultado são espaços que se ganham ou perdem, de acordo com o plano de ocupação. Convém referir que o empreendimento, situado na maior artéria a leste do centro de Rødovre, em Røskildevej, totalizará 36 mil metros quadrados e repartir-se-à, inicialmente e por ordem decrescente, em: 15.800 metros quadrados de escritórios; 13.600 metros quadrados para o parque de estacionamento e armazém; 3.650 metros quadrados de habitações; 2.000 metros quadrados dedicados ao hotel e finalmente os restantes 970 metros quadrados para lojas e restaurante.

Edifício sustentável

Nos pisos térreos, o volume contempla uma praça pública que, à volta, dispõe das lojas e restaurantes. Na parte central do edifício encontra-se os escritórios, sendo a parte do meio virada para norte, tendo como objectivo criar uma variedade de jardins que são alocados através dos terraços que compõem o lado sul, orientação onde surgem os apartamentos. De resto, o topo do edifício será ocupado pelo hotel. Não obstante, ao nível de sustentabilidade, este projecto apresenta algumas novidades, nomeadamente pelo facto de ser dotado de circuito de reaproveitamento de águas residuais, mas também pelo uso de betão reciclado em 40% das fundações e pela inclusão de painéis fotovoltaicos na própria fachada do edifício. O projecto inclui igualmente um parque público, dotado de larga área de vegetação, para além de áreas de recreio, para piqueniques e para a prática de exercício.

artigo escrito para a Traço

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