#59

Sempre tive medo do escuro, não é uma coisa de agora. Há algo no vazio que me incomoda. O lugar vazio, o silêncio absoluto, a ausência completa de gente. […] Gosto de não ter persianas. As janelas grandes e muita luz. Aprendi melhor na Islândia acerca da personalidade dos elementos naturais. Não falo com o sol mas já não me parecem loucas as pessoas que o fazem. Mais ainda porque as palavras, sobretudo em voz alta, são também alguém que fugazmente comparece, as palavras servem de gente para muita coisa. Tudo contra o escuro e o vazio, o não estar ali ninguém, que é o mesmo que dizer não estar ali mais ninguém além de nós. Os livros são inventados para nos enganarem pormenorizadamente contra a realidade.

Valter Hugo Mãe, revista 2

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