#109

Mais de trinta livros depois, uma das nossas mais extraordinárias escritorias continua a ser uma perfeita desconhecida. Ana Teresa Pereira vive na Madeira, há anos que não vem a Lisboa (pediu, por exemplo, para receber o prémio da APE por correio), não tem círculos de pertença, não se move entre festivais, é completamente incapaz de escrever uma dedicatória que não seja um monossílabo contrariado, tem horror às familiaridades e condescendências de salão. Mesmo no Funchal, está como se realmente não pertencesse àquele lugar. Desce de transportes públicos até ao centro para comprar pão e laranjas ou verificar a sua caixa postal; demora-se um pouco em um ou dois cafés, que não os da intelligentsia local; toma notas, lê ou fica simplesmente em silêncio. Nem sempre encontra gente com quem falar, embora seja capaz de o fazer de um modo marcante, vivo, quase convivial. Depois regressa a casa para estar com os seus cães, filmes e os livros que, quando pode, manda vir de todo o lado. Quem a vê atravessar a cidade, vê apenas uma mulher com qualquer coisa de irreal. Não suspeita que aquele vulto sonâmbulo fala a língua das árvores. […] Houve um tempo em que Ana Teresa Pereira pintava, mas não creio que ainda o faça. Teve também, durante anos, espaços alugados para escrever, mas deixou-os. […] As vezes em que a vi feliz é quando está a escrever. O seu sonho é repetir literalmente o que fazia Iris Murdoch: quando acabava um livro, dava a volta ao jardim e começava outro.

José Tolentino Mendonça, crónica na Revista do Expresso

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