#164

Quando editou o seu quinto álbum, Wit´s End (2011), disco absurdamente belo, qual lamento fantasmagórico, Cass McCombs, misterioso músico norte-americano nascido em 1977 na Califórnia, adulto de vida errante, avisou os seus agentes que todas as entrevistas que daria seriam conduzidas por carta.
[…] Acho que existe uma resposta [para as questões fulcrais, como a vida depois da morte] mas, por outro lado, as pessoas que acham que sabem a resposta são aquelas em quem menos podemos confiar, quer sejam professores, gurus, padres ou cientistas. Interessa-me qualquer tipo de relação física com a consciência; isso sim, é libertador. É por isso que vejo a música como a forma de expressão perfeita. Sendo que eu sou a última pessoa em quem se deve confiar relativamente àquela que faço. Saberá tanto sobre ela quanto eu. A percepção do ouvinte é a continuação da minha música. Posso ter uma perspectiva mais clara sobre como acontece, mas todas as vibrações que crio são parte de algo maior que ressoa pelo cosmos. Não há muitos sons. Só há um. O que faço é contribuir para dar sentido a esse todo.
[…] Todos trabalhamos com as nossas mãos, não é? A questão é: porque sinto necessidade de trabalhar? É o dinheiro? Não penso que seja. Acho que é algo mais do que pagar a renda. Mas não sei o quê. Quando somos novos, sentimos que estamos em controlo; quando nos tornamos mais velhos, percebemos que não. Essa é a natureza da vida.
[…] Ao pensar em amantes passadas, os seus rostos surgem desfocados na minha memória. O tempo é um conceito impossível. Quando fumas marijuana, que não é mais do que uma erva, desaceleras o teu conceito de tempo.
[…] Quanto a mim, sou o último a poder exprimir aquilo que realmente sou. Não cabe ao indivíduo exprimir o que é, cabe ao seu vizinho dizê-lo porque, à excepção de mim, toda a gente acha que é boa pessoa. Não carrego comigo o peso de ser um modelo de virtude. Estou interessado numa espécie de realidade absoluta.
[…] Anda muita gente a cantar sobre unicórnios e coisas desse tipo. Nada contra os unicórnios, mas há um tempo e um lugar para eles. Alguns podem ver unicórnios nas lojas de bebidas, mas nas filas para a sopa dos pobres, nas estações de serviço, nas igrejas, ou onde quer que as pessoas vão regularmente, não os encontramos. Temos hoje um entretenimento delirante, mascarado de espiritual ou iluminador, que se tornou popular. E os que o fazem exigem ser reconhecidos como artistas, quando não passam de um bando de palhaços. Nada contra palhaços, Adoro palhaços, mas…

Cass McCombs responde a Mário Lopes, Ípsilon

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