#225

Deixamos o asfalto pouco depois da Vila da Gorongosa. A serra ergue-se à nossa frente envolta numa neblina azul. Ao longo da picada somos surpreendidos por três postos de controlo do exército. […] Antes de atingirmos Sandjudjira paramos em Vunduzi. No meio da localidade, bungavílias descem sobre uma ardósia onde eram registados os preços dos produtos de um antigo mercado. O centro está repleto de mangueiras carregadas de fruta. Há porcos e galinhas a vaguear por ali, mas não se vê literalmente ninguém. Não há pessoas, civis, habitantes. Apesar dos 40 graus, sinto um arrepio. Intimidam-me sempre estes locais de absoluto silêncio em zonas de conflito. […] Deixamos Sandjudjira e voltamos à picada para regressar ao asfalto. Pelo caminh paramos para olhar. Está uma luz maravilhosa, suave, a serra eleva-se envolvida num sol morno de fim do dia. Surge uma mulher de bebé às costas envolto numa capulana. Vai buscar água, para o banho do bebé e para o jantar. Por causa do medo de todos os dias hoje também vai dormir fora de casa. À mata.

Cândida Pinto, Expresso

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