#241

Eu vivo obcecado com o tempo. Com a substância do tempo, a concepção do tempo, as convenções do tempo, a passagem do tempo, os efeitos do tempo, tudo o que tenha a ver com o tempo me deixa inquieto ou fascinado. E sei que o essencial vem em Agostinho, nas ‘Confissões’, escritas há mais de mil e quinhentos anos: ‘O que é então o tempo? Quem o poderá dizer com clareza e em poucas palavras? E quem será capaz de compreender bem aquilo a que se refere? Não há nada tão conhecido como o tempo, nada que esteja tão presente no nosso discurso’. […] Claro que medimos o tempo, em minutos, dias, meses, anos. E medimos espaços, contamos sílabas, ouvimos silêncios, assistimos ao movimento dos corpos e dos astros. Mas o ‘movimento’, defende Agostinho, não é o tempo, é apenas uma manifestação. E as nossas ‘comparações’ são casuísticas, incompletas, inconclusivas. Além de que só podemos ‘medir’ coisas presentes, coisas que estão a acontecer agora, que podemos seguir em todo o seu percurso. Medimos, na verdade, sem conhecermos quem medimos, medimos as manifestações precárias do tempo, não o próprio tempo. O tempo é uma ‘duração’, mas uma duração de quê? Há um lugar-comum inevitável: o passado já passou, o presente torna-se de imediato passado e o futuro ainda não aconteceu. Por isso, Agostinho sente-se uma criança, a quem se ensina que o presente estava escondido algures, aparece de repente e vai-se logo embora.

Pedro Mexia, actual

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