#243

De entre todas as razões para não gostar de pombos, esta é apenas mais uma. Quando me meto à estrada, gosto de espezinhar o que resta dos pombos mortos, com a borracha dos pneus. Faço por passar por cima deles, com as rodas do carro a sucederem-se. Às vezes até imagino que estão vivos e que fui o primeiro a acertar-lhes, e arquitectei interiormente um sofisticado mecanismo de atribuição, por pombo, por tipo de esmagamento, por cor e por tamanho.
Se estou com pressa limito-me a contar-lhes as ocorrências, como quem regista civis abatidos nas ruas de uma Sarajevo imaginária. Se fosse mais novo e exibicionista, faria cruzinhas na chapa do carro por cada um em que acertasse e cruzinhas mais pequenas e humildes por cada outro que repisasse.

Valério Romão, ‘Autismo’

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