#323

Lembro-me sempre do cheiro da minha mãe e do cheiro do meu pai. No quarto deles havia um armário enorme, desenhado por ele, em que 50 por cento do lado esquerdo era para pendurar a roupa dela, 30 por cento era para gavetas equitativamente distribuídas entre ele e ela e os restantes 20 por cento, ainda gigantes (ainda mais quando eu era pequenino), eram para ele. Quando eles iam dançar ou viajar e eu tinha saudades deles enfiava-me no lado da minha mãe, com a cabeça entre os vestidos, que conhecia um a um, para a cheirar. […] O cheiro do meu pai, do lado direito, era diferente. Fechava as portas da minha mãe e abria as do meu pai, enfiando o nariz em fardas da Marinha, blazers e smokings. Os cheiros dele, na pele, quando tomávamos o pequeno-almoço, eram a primeira água-de-colónia (de Köln, na Alemanha) de todas: a 4711. Existe desde 1794. Ainda hoje a uso.

Miguel Esteves Cardoso, jornal Público

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