#357

Que vale isto tudo, o imenso esforço que milhares de pessoas fizeram para escrever estas centenas de milhares de livros, dos quais 99,999% não têm o mais pequeno interesse para ninguém hoje, está esquecido e não é lido por nenhum mortal há cinquenta anos, se é que alguma vez foi lido por alguém além do autor? Ou estas dezenas de milhares de jornais relatando eventos que cem pessoas conheceram no seu tempo, e hoje ninguém se lembra, ou os milhares de esforçados artigos de opinião, cartas à redacção, discursos de circunstância, que não disseram nada, não mudaram nada, nunca mais vão servir para rigorosamente nada? […] Nada. Só Jorge Luís Borges era capaz de dar uma resposta diferente, porque ele sabia que nós não seríamos os mesmos sem todo este magma de papel, mesmo que se seja analfabeto, mesmo que nunca se leia. Pode ser que todo este papel seja pouco mais do que um cabinet de curiosités moderno, feito de livros que ninguém lê, ou que não valem nada por qualquer critério literário ou científico: mas todos eles nos falam com uma cacofonia que é também um espelho da nossa voz.

José Pacheco Pereira, jornal Público

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