#365

Demorei três anos a chegar a Paquetá. Desde o primeiro Inverno carioca que ouço este nome, sempre à distância de uma barca: a ilha sem carros, um Éden parado. […] Embarcámos com o povo de Paquetá, sexta-feira à tarde, tipo barco para o Barreiro. […] Tudo isto se vê em Paquetá, restos de corte misturados com anúncios toscos de barbeiro e acabamentos de periferia, muros de onde transbordam palmeiras que à tarde são sombras no saibro, caminhos de saibro porque a ilha não tem asfalto, tudo se move ao som de charretes, bicicletes, o trenzinho de dar a volto aos oito quilómetros quadrados, lojinhas que parecem o interior do interior do Brasil, vendas lá dos sertões com homens a cavalo, mas sempre à beira de avistar a Guanabara, pedras saídas da água como lombos de hipópotamo, e ao virar da esquina uma acácia-rubra. […] O Daniel Blaufuks lembrava-se de um cemitério de pássaros, seguindo o contorno da ilha. Nem sabíamos que podia existir um cemitério de pássaros e no fresco da sombra lá estavam, pequenas campas com a tampa removível. Abri uma: vestígios de ossos tão finos que pareciam espinhas. Depois li que a tradição vem já do século XIX. As pessoas trazem o seu passarinho morto e deixam-no numa campa livre. Como os ossos dos passarinhos viram poeira num instante, há sempre espaço. Li que a isto se chama ‘alta rotatividade dos túmulos’.

Alexandra Lucas Coelho, revista P2

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