#380

Daí que [as mulheres] transportassem a carga com gosto e ainda ficavam gratas aos homens que haviam trazido aos montes esta bênção. E isso era uma sensação fantástica: aqui não se era posto à prova, como no resto do mundo, para identificar o tipo de homem – confiável, poderoso e inspirando receio, ou gentil e belo – mas fosse qual fosse a personalidade de cada um, e para além da opinião individual sobre as coisas da vida, o amor estava sempre ao alcance da mão, pois fora uma bênção o que haviam trazido, e esse amor antecipava-se como um arauto, disponível todo o lado como uma cama de hóspedes feita de lavado e os olhos ofereciam presentes de boas-vindas. Às mulheres permitia-se-lhes dar livre curso a estes sentimentos, embora acontecesse passar-se por um prado e ver um camponês a acenar com a foice como se fosse a Morte em pessoa.

Robert Musil, ‘A Portuguesa e outras novelas’

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