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Sebastopol é uma cidade de colinas, de parques ligados por escadarias, e de todo o lado se vê o mar, a baía, o porto. A zona turística, uma orla cheia de hóteis, restaurantes e cafés com nomes como ‘Moscovo’ e ‘Rússia’, está deserta. Os cafés estão fechados, com as esplanadas recolhidas, os barcos que fazem passeios turísticos balançam vazios sobre os reflexos dos edifícios da corniche, leves, antigos, maciços e brancos. […] O ferry que atravessa a baía de Sebastopol vai à pinha, mas as pessoas mantém o silêncio, tal como no autocarro. É um barco velho, ferrugento, a ranger por todos os lados. Uma sirene sinistra dá o sinal para a partida. […] Dois músicos entram no barco e começam a cantar, para pedir dinheiro. Um acordeonista e um guitarrista que canta, com um microfone roufenho, uma melodia do tempo da guerra. ‘Sebastopol espera pelos seus combatentes, sem saber que nunca chegarão, porque estão mortos’, canta o jovem de rosto magro e roupa muito suja, e as pessoas choram em silêncio, comprimidas nos bancos corridos.

Paulo Moura, jornal Público

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