#424

Há [na Crimeia] um paralelo evidente com o caso jugoslavo. O fim da URSS fez com que milhões de russos se tornassem de alguma forma estrangeiros em todas as demais 14 ex-repúblicas soviéticas, ao mesmo tempo que milhões de sérvios passavam a sê-lo dentro de ex-repúblicas jugoslavas que se tornavam independentes. Em ambos os casos, 1991 trouxe o fim de experiências federais em que cada uma das repúblicas federadas (ou repúblicas autónomas dentro destas – o caso da Crimeia na Ucrânia, ou do Kosovo dentro da Sérvia) se constituíra como representação política de um povo com autonomia e identidade nacional devidamente reconhecidas. A crise dos regimes comunistas (re)abriu o caminho ao pior nacionalismo: xenófobo, nostálgico do pior passado, o dos fascismos genocidas dos anos 40. Nacionalistas ucranianos e croatas, recordemos, haviam sido dos mais empenhados aliados da Alemanha nazi no Holocausto e na perseguição da resistência soviética e jugoslava contra os ocupantes nazis. A implosão dos sistemas federais abriu caminho a novos Estados de modelo unitário, onde a integração das minorias (os russos na Ucrânia, os sérvios na Croácia) foi tudo menos serena, julgando os nacionalistas de turno que elas podem ser pretexto para a ingerência externa (de Moscovo ou de Belgrado). 

Manuel Loff, jornal Público

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