#450

Os maçaricos trabalham em equipa, exclusivamente em regime de azáfama. São redondinhos, pançudos e misantrópicos, tratando os observadores humanos com desdém. Nunca fogem: afastam-se simplesmente, por ser mais o nojo do que o medo. Também a rebentação das ondas lhes é indiferente. Matava-os todos se eles se pusessem a jeito, mas eles, mantendo sempre as distâncidas, fazem de conta que nem sequer dão por ela. São pouco peneirentas, são. Voam pouco, preferindo correiras a alta velocidade. Vistos de longe parecem deslizar sobre carris invisíveis, em linhas impossivelmente rectas. Onde tiraram o curso superior de geometria?
[…] As primeiras andorinhas de 2014 – para além do milagre de terem chegado, de mais de sete mil quilómetros de viagem e do medo de não sobreviverem ou de não lhes apetecer fazer férias, que vêm dar ao mesmo – são azulinhas e invulgarmente gordas e atrevidas. Os passarinhos residentes estavam todos incomodados. Tinham chegado os chatos dos campeões do vôo, com os bronzeados da África do Sul. Tal como nós não percebiamos porque é que estas andorinhas se tinham dado ao trabalho de vir até Sintra quando poderiam ter ficado pelo Algarve ou por Marrocos.

Miguel Esteves Cardoso, jornal Público

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