#488

Alentejo: um quintal, dois cães, um rapaz a colher caracóis enquanto não chega às laranjas. […] O Vasco é o rapaz dos caracóis, tem de os colher para eles não comerem as couves. Quando se acabam vamos ao caixote de livros que está dentro da lareira (que já não é lareira porque foi substituída pela salamandra) desencantar um livro infantil escrito por uma amiga. O Vasco leva-o para o quintal mas inventa outra coisa melhor para fazer. Quando vou estender mais roupa, sobe comigo e diz-me que vai ter um irmão chamado Pedro. Eu digo que tenho um irmão chamado Pedro. Ele diz que uma bactéria disse ao irmão na barriga que o Vasco não é bom. Eu digo que não pode ser porque as bactérias não têm boca. […] O Nuno, que estudou Belas-Artes [e é pai do Vasco], acartou o tanque de pedra que estava nas minhas ervas. É um forasteiro, como eu, só que muito mais antigo. Já conhece os curativos todos, foi ele quem cortou um pedaço de cacto para aliviar as minhas queimaduras de salamandra. Disse-me para não estranhar se um dia o vir a olhar uma parede do quintal, porque fica assim à espera que lhe venham imagens. Eu não estranho nada, tomara eu que não me estranhem.

Alexandra Lucas Coelho, revista P2

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