#549

Se perguntarmos hoje a um miúdo que cor tem o céu, o mais plausível é ouvirmos: ‘azul’. Mas nem sempre foi assim. Mestres indescutíveis do espírito ocidental como Aristóteles, Lucrécio ou Séneca, descreviam o céu como sendo vermelho, amarelo, violeta, verde, laranja. Era desse modo que o observavam, aplicando aí o rigor analítico que lhes reconhecemos. O que só adensa o enigma. Nenhum deles menciona o que depois para nós se tornou óbvio. Isso leva o historiador das cores, Michael Pastoureau, a interrogar se os homens e as mulheres da Antiguidade chegaram a ver o azul, ou se alguma vez o viram como nós o vemos. Uma coisa parece certa: as cores não são apenas fenómenos naturais, são também fruto de uma construção humana e cultural complexa. O azul que esteve diante dos olhos de Aristóteles e que ele não contemplou fez-nos pensar naquilo que está hoje patente e acessível a nosso lado, sem que nos demos conta. Pela vida fora há, por isso, uma humilde dúvida que temos de conservar: que cor tem o céu que não chegamos a ver?

José Tolentino Mendonça, revista

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