#589

A chuva cai ininterrupta como uma maldição. A multidão de impermeáveis amarelos afasta-se agora transquilamente do local do crime, sorrindo e trocando entre si pormenores macabros sobre o sucedido. O cão está deitado numa cama feita de jornais ensopados. Tem os olhos semicerrados e o pêlo castanho coberto por uma pasta feita de sangue e lama. As notícias, já desbotadas, diluídas e desactualizadas, ganham novo fôlegom enbebedando-se com o sumo fresco da maldade diária. Aquilo já não é um cão. O corpo irreconhecível é um amontoado disforme de pêlo retalhado, ossos partidos e sangue pisado. O inspector-adjunto, que também assistira ao acto, aproxima-se do recanto para onde o animal tinha sido cuspido. Ajoelha-se junto do moribundo. Ouve o estertor: a agonia a abrir-lhe a fechadura do peito. É uma respiração falha e arquejante com sangue a gorgolejar lá dentro. Por mais que se esforce, o inspector-adjunto não consegue dominar as emoções, e dos seus olhos vesgos desequilibram-se algumas lágrimas.

Sandro William Junqueira, ‘O Caderno de Algoz’

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