#621

O corpo de Odonato era uma sombra fugidia do que havia sido a vida inteira, sendo que nem a roupa mais apertada se conseguia ajustar ao seu corpo e o seu modo de caminhar agora acontecia em desajeitados movimentos todos os dias – e já cansado disso – refazia o exercício de reaprender a caminhar num ajuste ao parco peso que o seu corpo agora oferecia, cambiando as mais básicas noções de gravidade, ensinando aos joelhos como dialogar com os seus diminuídos músculos e até aos lábios como obedecer aos comandos da coordenação motora que dá lugar às palavras, esse reduto final e pronunciável das ideias e das vontades que falamos […] atento aos ritmos do seu corpo leve e solto, equilibrava-se, o transparente homem, no peso do saco de comida que levava, dose reforçada e bem cheirosade bifes com fartura de batatas fritas, na esperança de que algo sobrasse para o filho.

Ondjaki, ‘Os Transparentes’

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