#639

Não consigo evitar, quando estou muito tempo num mesmo lugar, noto que fico pior, como se começasse a ficar cego. Tudo se torna parecido, indistinto e deixo de me maravilhar. Ao invés, quando viajo, tudo me parece um mistério, até mesmo antes de chegar. Gosto, por exemplo, de ir nas diligências e observar os desconhecidos que viajam comigo, gosto de inventar as suas vidas, adivinhar porque se vão embora ou porque estão a chegar. Pergunto-me se haverá algo que nos una por acaso ou se nunca voltaremos a cruzar-nos, que é o mais provável. E, como seguramente não voltaremos a cruzar-nos, penso que essa intimidade é única, que poderíamos permanecer calados ou confessar qualquer coisa uns aos outros, sei lá, ao olhar, por exemplo, para uma senhora, penso: poderia dizer-lhe agora mesmo ‘amo-a’, poderia dizer-lhe, ‘senhora, saiba que me interessa’, e haveria uma possibilidade em mil de que, em vez de me olhar como a um demente, ela me respondesse ‘obrigado’ ou me sorrisse […], também poderia perguntar-me: ‘está a falar a sério?’, ou poderia de repente confessar-me: ‘há vinte anos que ninguém me dizia isso’, compreendes? […] É como com os livros, vemo-los empilhados numa biblioteca e gostaríamos de abri-los a todos, saber ao menos como soam. Pensamos que poderemos estar a perder algo de importante, vemo-los e intrigam-nos, tentam-nos, falam-nos de quão pequena é a nossa vida e de como poderia ser imensa.

Andrés Neuman, ‘O Viajante do Século’

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