#650

Ainda hoje me recordo de maneira muito nítida como a minha vida se enriqueceu graças à leitura, como os livros de aventuras que comecei a ler em criança me abriram um horizonte extraordinário. Eu lia tão apaixonadamente que sentia as aventuras dos heróis como minhas. E isso foi uma chave mágica que me permitia entrar noutra dimensão, viajar no espaço e no tempo, conhecer outros mundos. […] A minha mãe contava que eu escrevia versões alternativas para os finais dos romances. Ou prolongava-os, quando tinha pena de os ver terminar. […] Ao mesmo que estimula a imaginação, a literatura faz-nos ver com olhos muito mais críticos o mundo em que vivemos, desperta em nós uma insatisfação face ao mundo real, e isso é para mim um dos grandes motores do progresso humano. […] Ninguém pode estar sempre satisfeito. Só os tontos.
Deixámos cair os valores. Vivemos num mundo em que já não se sabe o que é bom, mau, belo, feio. […] As imagens substituíram as ideias. A palavra, que era inseparável das ideias, passou para segundo plano nos meios de comunicação. Hoje, o fundamental é a imagem. Fica tudo à superfície. A maior parte do que se anuncia como arte não é arte, é uma anestesia através do entretenimento. Formas de um prazer efémero. […] O risco é o de ver o pesadelo orwelliano converter-se em realidade. No momento em que as pessoas se deixam adormecer tão facilmente pelos grandes meios audiovisuais de comunicação, podemos desembocar numa sociedade altamente tecnológica, mas em que as pessoas se transformaram em autómatos, sem espírito crítico.

Vargas Llosa, actual

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