#653

Para provar quão bem a conhecia, Marcher começou a disparar recordações concretas que lhe assomavam à memória à medida que as desfiava. O olhar e a voz dela – agora a favor dele – concretizaram o milagre, como a faísca de um alumiador a transformar em chamas, uma por uma, a longa fiada de bicos de gás. Marcher congratulou-se a si mesmo com o esplendor daquela iluminação. Contudo, estava ainda mais agradado com o esforço bem-humorado dela para lhe mostrar que, no seu afã de acertar nos pormenores, conseguira falhar quase todos. Não fora em Roma, mas sim em Nápoles; não tinham passado oito anos, mas quase dez. Ela também não se fazia acompanhar pelos tios mas pela sua mãe e irmão. Mais ainda, ele também não estava com os Pembles, mas com os Boyers, tendo-os acompanhado desde Roma – um ponto em que ela insistiu, para alguma surpresa dela, e para o qual dispunha de provas. Quem os apresentara foram as pessoas com quem ele estava, e os Boyers ela conhecia, ao passo que os Pembles não, apesar de já ter ouvido falar deles. O episódio da tempestade que violentamente se abatera sobre eles, obrigando-os a procurar abrigo numa escavação, não tinha ocorrido no Palácio dos Césares, mas sim em Pompeia, onde se encontravam e onde presenciaram um importante achado.

Henry James, ‘A Fera na Selva’

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