#675

‘Não, não é preciso’, disse eu na mercearia. E em boa hora: a senhora já ia colocar o saco de plástico onde residiam seis carcaças dentro de outros sem nada, a não ser o seu inconfundível cheiro a polímero. […] Tendo asas, o segundo permite um transporte mais equilibrado, com os dedos em gancho, sem forçar desnecessariamente a mão e distribuindo melhor o peso entre as juntas do punho, cotovelo e ombro. Mas eram pãezinhos, bolas. E ainda por cima feitos de matéria semioca, com mais ar do que miolo – marca registada da panificação industrial. Podia levá-los pendurados na unha do dedo mindinho. […] O seu [dos sacos de plástico] ciclo de vida útil é mais curto do que o de um espermatozóide perdido. Fazem lembrar os insectos efemerópteros, que depois da fase larvar só têm 24 horas para a infância, a juventude e a maturidade sexual. Se não encontram parceiro, ainda morrem sem conhecer o amor – uma crueldade para quem só vive um dia. Para os sacos de supermercado, o seu tempo útil é ainda mais escasso. […] Felizmente há agora uma proposta de um imposto de dez cêntimos por cada saco distribuído. […] Só mesmo os mentalmente inábeis quererão pagar dez cêntimos para levar lixo para casa. Dez cêntimos para um item que dura dez a vinte minutos – uma dupla ofensa, económica e ecológica. Eu, com esse dinheiro, compro mais duas laranjas na mercearia, deixo lá o saco e volto com elas fazendo malabarismo.

Ricardo Garcia, jornal Público

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