#678

[Romain Gary Cooper era] um homem elegante e donjuanesco, muito teatral, às vezes cabotino. […] Gostava da aventura dos livros de Malraux, da zombaria de Gogol, e forjou um estilo que fez dele um sucesso de livraria, mesmo quando os críticos criticavam as conjugações e sintaxe. Trabalhava diariamente, disciplinadamente, manhã cedo ou noite dentro, isto desde os tempos em que era miúdo e, vestido com um robe à Balzac, escrevinhava no seu quarto. Embora tenha sido diplomata, sociável por obrigação, Gary era um homem pouco gregário, um melancólico taciturno. […] A quarta figura [que marcou a vida de Romain Gary] é fictícia: Émile Ajar (‘ajar’ significa ‘brasa’ em russo). Gary inventou um autor com esse nome, imaginou uma biografia misteriosa, e escreveu vários romances de grande ‘vulgaridade poética’, mas divertidíssimos. Percebendo que a mistificação tinha de ser levada ainda mais longe, contratou o filho de um sobrinho, Paul Pavlowitch, para aparecer em público como ‘o verdadeiro Ajar’. O parente desempenhou bem o papel, mas quis mais intervenção nos manuscritos, mais dinheiro, sobretudo depois de um dos livros vencer o Goncourt. Então Gary, com o nome de Ajar, publica ‘Pseudo’ (1976), romance sobre Paul Pavlowitch, um homem que escreve em nome de outro, um ‘outro’ que nunca é nomeado. Foi um divertimento geral.

Pedro Mexia, actual

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