#697

Os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro – pensam eles, os ‘produtores de conteúdos’ televisivos – é telegénico que se farta e tem aquela quantidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o ‘efeito de real’. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e entertainers para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco. O povo construído pela televisão é degenerado, ridículo, monstruoso. […] Existe mais ‘povo’ em qualquer filme de Pedro Costa (um povo que vem, isto é, venturo, como o nome de Ventura) do que em todos os programas de televisão. O povo da televisão – e esse é o segredo da sua telegenia – coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros de poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o. […] A televisão quer tudo muito bem arrumado nos seus lugares e que não se quebre a harmonia estabelecida no parque natural do povo.

António Guerreiro, Ípsilon

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