#857

Conversámos [com João Pimentel e Carmo Gregório] à noite, depois de fecharem a livraria [Fabula Urbis] às 20h, e de jantarem, como muitas vezes, num restaurante do bairro [da Sé, em Lisboa]. Falar sobre livros é quase tão bom como lê-los e a noite foi longa.
Carmo: ‘Quando fui directora de uma escola, convidei várias vezes Agostinho da Silva a ir falar com os alunos. E lembro-me de uma vez ele dizer que dava os livros, não os guardava, porque ficaria preso. Se não tivesse livros, estava sempre pronto a partir. Realmente, os livros amarram-nos.’
João: ‘São uma grande âncora. E um grande lastro. Só de pensar em mudar de casa com estes livros todos. Mas, como dizia um filósofo, se tivermos uma horta e uma biblioteca, temos tudo o que precisamos.’
Carmo: ‘Era o meu sonho.’
João: ‘Livros para ler toda a vida e uma horta para as sopas para nos alimentarmos.’
Carmo: ‘Mas também não se saía de lá.’
João: ‘Mas não seria preciso sair. Os livros levam-nos para qualquer lado. O Maquiavel tem um texto muito interessante – o Maquiavel não era nada maquiavélico como pensam – em que diz qualquer coisa como ‘Quando chego a casa visto-me, porque vou encontrar-me com os mais ilustres’… Ia encontrar-se com os grandes autores. Como algumas pessoas se vestiam para ir ao teatro, o Maquiavel vestia-se para ler.’

Susana Moreira Marques, jornal Público

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