#867

alvarez

No espectáculo da vida ficou-lhe [a Dominguez Alvarez] reservado o lugar da tragédia. De origens muito modestas, incompreendido em vida, alheio às correntes bem pensantes do seu tempo, inteiro e inconformado, vencido pela doença, morreu na sombra. Quase desconhecido em Lisboa, acarinhado e acompanhado por escassos amigos no Porto, Dominguez Alvarez deixava para trás uma obra difícil de entender naquele Portugal amorfo e cinzento dos anos anteriores à II Guerra Mundial. […] Com uma personalidade complexa, muitas vezes de tipo esquizoide e até bipolar, com dificuldade em adaptar-se à realidade do seu tempo e problemas de alcoolismo, surge, refere o curador da exposição [Bernardo Pinto de Almeida], ‘simultaneamente humilde e orgulhoso, descrente de si e megalómano, mas profundamente inteligente do ponto de vista estético’. Alvarez deixa uma ‘pintura violentíssima, com uma dimensão anti-humanista’. Acaba por produzir um conjunto de telas que, até pelas suas temáticas, seriam sempre de difícil aceitação pelo gosto burguês da época. Avultam os enterros, as cenas cruéis de prostituição, as tabernas, os bêbedos, os bairros e todo um mundo outro, à margem. Alvarez pintava numa cave mais baixa do que ele próprio. Pintava febrilmente. Sabia que se pintasse de outra maneira e com outras temáticas não teria dificuldade em ser aceite nos salões. Ainda assim, e não obstante a extrema pobreza que o consumia ou a tísica que o fazia definhar, não muda de rumo. Por isso o viam como um degenerado, porventura com o similar ar de desconforto e desprezo com que anos mais tarde, na Alemanha nazi, seriam defenestrados pintores cuja obra rasgava os cânones da nova ordem.

Valdemar Cruz, actual

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