#868

A cidadezinha estendia-se abaixo da casa do médico como um insecto estranho e monstruoso, deitado sobre a sua barriga e com os tentáculos esticados em todas as direcções. Alongava, aqui e acolá, uma perna ou retraía uma asa, como então no fiorde, onde um pequeno navio a vapor deslizava sem soltar um único ruído, deixando um rasto negro atrás de si. […] – Olhe para aqueles penhascos e ravinas, e para os tufos de erva, e os arbustos! A esta luz parecem-se com pessoas sentadas!

Knut Hamsun, ‘Mistérios’

Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso. Estava deitado de costas, sentia a carapaça dura e, ao elevar um pouco a cabeça, via a barriga arredondada, de cor castanha, dividida em faixas rígidas arqueadas, e no alto dela a coberta da cama em equilíbrio instável, quase a resvalar. As muitas pernas, penosamente finas em comparação com a sua actual corpolência, tremiam diante dos seus olhos perplexos.

Franz Kafka, ‘A Metamorfose’

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