#871

Apesar de ter morrido em 1979, em Los Angeles, há alguns meses que o cineasta francês Jean Renoir se corresponde com a actriz portuguesa Sofia Dinger. Sem que o saiba, naturalmente. E sem que Sofia necessite de internamento psiquiátrico compulsivo. […] ‘Comecei num exercício de correspondência imaginária com o Renoir’, explica a actriz, ’em que lhe ia falando e escrevendo as minhas questões, mais ou menos ficcionadas, misturando com o texto dele, que irrompia pelo meu discurso dentro. Achei que era isso que mais me interessava: a mistura do que humildemente tenho para dizer com estas pontes que crio com quem acho que ele era, com o que pensava, com o que me iria responder.’ […] Renoir, diz ela, agradecia à bala que o tinha tornado coxo. Sofia, achamos nós, estará provavelmente a agradecer a este Renoir que a tornou insegura. Talvez para que A Grande Ilusão os dois protagonistas entrem em palco numa dança manca, sem esconder as suas debilidades.

Gonçalo Frota, ípsilon

Acordei em Paris há meia-noite de sábado e a primeira coisa que fiz no domingo foi visitar um amigo recente. Ele morreu mais de cem anos antes de eu nascer, mas ainda assim passámos parte deste verão juntos, na minha toca alentejana, porque a narradora do livro que eu estava a escrever fez um pacto com ele. Portanto, quando acabei o livro, meti-me numa low cost e vim cumprir o desejo dela. Não vinha a Paris há uns sete anos. […] Apanhei assim o metro de Boucicaut para Passy e quando saí lá estavam aquelas varandas com grandes janelões velados por cortinas, luz acesa de manhã por ser já Outubro e chover, ruas brilhantes, folhas de Outono, vermelhas, brilhantes. Tudo era completamente Paris e eu nunca tinha caminhado neste bairro, Passy, ainda uma aldeia no tempo em que o meu amigo para aqui veio morar. Hoje, a ponta da Torre Eiffel domina o horizonte, mesmo por trás das nossas costas, se sairmos do metro e mtermos pela Rua Raynouard, que foi o que eu fiz. Fui por entre as robustas varandas, à procura do número 47. […] Então foi nesta casa que Balzac escreveu muitos dos volumes da ‘Comédia Humana’, noite dentro, dia fora, em jornadas de 16, 18 horas.

Alexandra Lucas Coelho, revista P2

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