#887

Saí do Rio de Janeiro no último dia da Primavera, aterrei em Belgrado no primeiro dia do Inverno. É o que acontece quando atravessamos o Equador em Dezembro. Não consigo ver a distância no Google Maps, porque não dá para ir a pé, de carro ou de autocarro. […] A Jugoslávia ainda é uma ideia forte. […] Cá em baixo, nas margens do castelo [fortaleza Kalemegdan], também [dá para ver os rios]: o Sava em primeiro plano, a ilha de ninguém que até hoje é um pântano desabitado, o Danúbio por trás e Nova Belgrado, com as suas torres corporativas, que ao crepúsculo têm qualquer coisa da Disney. […] Nem ao crepúsculo o frio estava mortal […] pelo menos para um europeia que vem do Rio de Janeiro com uma súbita nostalgia de árvores caducas, casacos de Inverno, ocre em vez de verde, silêncio em vez de ruído. Belgrado vindo do Rio é como se alguém tivesse cortado o som. Há carros, velhos eléctricos vermelhos do tempo da Jugoslávia, é uma capital, e nos Balcãs, mas o som parece ter ficado dentro de uma fotografia. […] A Jugoslávia continua a ser uma ideia forte.
[…]
O voo Lisboa-Belgrado acabou na véspera de eu deixar Belgrado. Parece que havia um trânsito forte de Belgrado para Lisboa mas não o inverso. É verdade que quando alguém em Belgrado pergunta de onde somos, ah, Lisboa, abre-se uma luz. Belgrado tende a achar-se uma cidade deprimente, o contrário de Lisboa (na imaginação de Belgrado). Nunca tinha estado numa cidade que se achasse deprimente enquanto seduz, sem remédio, quem chega. Belgrado é tão o contrário de uma cidade deprimente quanto o Rio de Janeiro.

Alexandra Lucas Coelho, revista P2

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