#923

Em 2007, o artista Christian Marclay atribuiu a si próprio uma missão impossível: criar um filme sobre o tempo que ‘representasse todos os minutos do dia e da noite’. […] The Clock é uma compilação de cenas de filmes contendo toda a espécie de referências ao tempo e à sua passagem – sejam elas um pêndulo ou os ponteiros de um relógio, um cigarro a arder, uma espera ansiosa, uma corrida para apanhar um comboio, um despertador a tocar. Mas The Clock é também um relógio, sintonizado com o tempo real. Sempre que se vê as horas no filme, elas coincidem com a hora do dia em que estamos a ver essa imagem. […] Apesar de várias pessoas lhe terem dito que tinham visto The Clock na sua totalidade ou quase, Marclay diz que não encoraja isso. ‘A decisão é vossa, se querem ver oito minutos ou duas horas. A vida do espectador torna-se parte da experiência porque ele tem de ir buscar os filhos à escola, ou ir à casa de banho.’ The Clock não tem um início nem um fim. Não existe uma hora ideal para assistir. […] Marclay recomenda que se vá e volte em diferentes alturas do dia, porque os segmentos e a representação do tempo são diferentes conforme a hora. […] A diferença entre a realidade e o mundo imaginário do filme torna-se menos nítida.
Kathleen Gomes, jornal Público

[Em The Clock] perdemos a noção do tempo. Queremos é ver o que se segue, para onde vai aquele homem apressado, o que move aquela mulher que olha na penumbra um espelho, o que trama aquele grupo fechado numa sala. Que horas marca aquele relógio lá ao fundo? As de uma partida? De uma chegada? De um encontro secreto? De uma decisão fatal? De uma execução? Estamos no labirinto do tempo, absorvidos pela cadência dos ponteiros sem olhar a cenários ou épocas, tão depressa estamos num western como num drama italiano, e tudo parece ter sentido, e lógica, e rumo, neste emaranhado de gente movida a relógios, vamos com eles até ao virar da esquina, até à porta da sala, e o relógio deles tem os ponteiros na mesma posição dos do nosso, as horas ali são as de cá, por mais décadas que nos separem. À saída, nem vale a pena perguntar que horas são. Por um tempo, passaremos a ver relógios onde sempre existiram, mas onde sempre os ignorámos.
Nuno Pacheco, jornal Público

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