A ‘casavana’ de Alfama

#01   Mudámo-nos para Alfama num dia que se abateu em Lisboa um forte temporal. Recordo-me perfeitamente: chovia torrencialmente e a casa parecia ter encolhido. Eu e A. partilhamos uma pequena casa que mais parece um grande quarto: três passos quadrados e damos uma volta de 360 graus. Lar doce lar, ou o móvel da cozinha não estivesse cheio de chocolates. – A nossa casa mais parece uma caravana – disse a A. – Podemos baptizá-la de ‘casavana’ – respondeu-me. Na nossa casavana o micro-ondas é mesmo micro e o frigorífico um minibar. Tal como Alfama, parece da Playmobil.

#02   Como vizinho temos um gato preto que partilha a casa com o senhor Antonio. O gato faz-me lembrar Behemoth, a personagem felina de ‘Margarida e o Mestre’: bebe vodka e joga xadrez, para além de que fuma compulsivamente. O senhor António, coitado!, todos os dias alimenta os vícios do bicho. São sacos e sacolas e saquinhos e saquitéus atafulhados de maços de tabaco e garrafas de vodka que transporta para o andar acima do nosso, o segundo. Não aparentando ter idade para ser filho do senhor Bulgakov, o senhor António viveu já o suficiente para ficar cansado, arfando em crescendo por cada degrau trepado. – Ai os meus pulmões!!! – ouvimo-lo tossir amiúde.

#03   Alfama tem poucas árvores mas o senhor António devia andar mais nas ruas e curar-se de ar puro. Na verdade, em dias de sol as ruas do bairro são inundadas por um intenso aroma de floresta. Parece um fantasma: sente-se forte e intenso no olfacto mas totalmente invisível à visão. Nos primeiros dias pensámos que o perfume se devia ao jardim Botto Machado, pequeno Playmobil verde no coração da Feira da Ladra, mas rapidamente percebemos ser por causa da roupa. Lavada e estendida, a roupa dos vizinhos exala uma explosão de malmequeres e pinheiros e frutos silvestres e lavanda e lixívia.

#04   Quando está sol, Alfama convida à brincadeira. As ruas tornam-se perfumadas e nas paredes dos prédios as peças de roupa desenham formas vivas como marionetas num teatro de sombras. Eu e A. parecemos tolinhos: percorremos o bairro a apontar paredes e a imaginar estórias. – No Beco do Surra há um monstro que surge quando ninguém o olha. – alertou A.. Não temos medo de tal criatura porque tornámo-nos amigos de Behemoth: todas as semanas lhe oferecemos tabaco.

#05   Ao invés de fumarmos, eu e A. gostamos de ir ao jardim Playmobil de Alfama. Lemos livros e jornais, a posologia de medicamentos e os componentes de detergentes para a roupa, e, sobretudo, falamos encarando de frente o Tejo. No Jardim Botto Machado é dos três primeiros bancos que se tem a melhor vista para esta piscina que parece mar mas é rio. – O monstro do Beco do Surra não se deixa ver por, talvez, ser tímido. – augura A.. Na Feira da Ladra, pelo contrário, ninguém padece de timidez. Feirantes e namorados e visitantes e árvores falam alto. Uns riem, outros choram, aqueloutros regateiam com prazer.

#06   Na Feira da Ladra tudo se vende e tudo se compra: fechaduras enferrujadas; pratos partidos; sapatos rotos; fotografias rasgadas… Há seis anos comprei por 1 euro ‘Margarida e o Mestre’ do senhor Bulgakov. Uma pehincha! Mal sabia que passado este tempo cá encontraria Behemoth a vender um par de pulmões em segunda mão. – É para alimentar os vícios. – sussurro a A..

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