A minha realidade, a vossa ficção

#01   Gosto de misturar a realidade com a ficção. Prefiro, porém, misturar a ficção com a realidade. Isso explica, num primeiro momento, o meu interesse pelo jornalismo e justifica, muito mais, o meu fascínio pela literatura. A verdade é que, variadas vezes, interpreto a realidade pela ficção e, mais do que insensato, este ensaio revela-se incrível, único, fértil, criativo.

#02   Acompanhar um livro é um agradável desafio. Seguir a estória pensada, desenvolvida e concretizada por um bom escritor é um acontecimento impactante: não deixa nunca o leitor indiferente. Ainda mais quando encontramos linhas de contacto com o dia-a-dia. Escrevo-o por experiência própria: sempre que leio um romance, dou por mim a reconhecer uma rua descrita nas ruas que percorro; a associar os pensamentos de uma personagem com uma ideia lida numa crónica de jornal; a reviver a trama pela simples audição de um ruído.

#03   Três exemplos: aquando da leitura de ‘Auto-de-Fé’, a histórica livraria Sá da Costa, na Baixa de Lisboa, assinalou o encerramento da sua loja com um exemplar deste livro de Elias Canetti na montra; posso também assegurar que o senhor Hegarty, personagem de ‘O nosso reino’ de Valter Hugo Mãe, passeou ao longo dos dias que li a obra ali no Cais do Sodré, num cantar-sermão aos peixes do Tejo; ainda mais espantoso, na altura que conheci a minha namorada, estava a ler ‘Os Insolentes’, de Marguerite Duras, e descobri que o romance decorre na sua cidade de origem, Bordéus.

#04   Tudo isto, pois, mais do que divertido, é, sublinho, mágico. Ao assinalar coincidências e ao estabelecer paralelismos sou um privilegiado porque leio a realidade de uma forma rara. Transformo-me em mago, um ser escolhido a quem são disponibilizados dados para interpretar o dia-a-dia de forma inatingível ao comum dos mortais. Este dom torna a minha realidade ilimitada, mais abrangente e, ao não conferir, de momento, o poder da antecipação, desobriga-me a responder a porquês, a chegar a fórmulas ou a resoluções gerais que guiem a humanidade.

#05   Ao invés de Zaratustra, não planeio descer das montanhas para dar a boa-nova, mas tão somente contaminar a (minha) realidade com a ficção. Tendo consciência de que a realidade não se explica pela ficção, quero no entanto discutir o contrário, abrindo essa possibilidade. Como leitor, como ser pensante, tenho o dever, a liberdade e a legitimidade para tal. E no final, de um livro e do dia, estou certo que fico sempre a ganhar.

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2 responses to “A minha realidade, a vossa ficção

  1. Muitas verdades. Essa é realmente um privilégio de um leitor que sabe aproveitar uma boa leitura. Eu nunca fico só com a história ali contata, sempre aprendo e ganho muito com cada leitura. E sem contar que foi uma mente, uma pessoa, um ser que esteve ali a colocar seus pensamentos e eu posso dialogar com essa pessoa por quantas vezes quiser e atravessar o tempo, como é o caso da leitura dos livros épicos ou dos que já se foram… Adorei!

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