A balada das 36 badaladas

#01   Esta crónica é sobre sinos de igreja. Vivi cerca de 30 anos na Parede, lugarejo piscatório na linha de Cascais, subúrbio de Lisboa. Todos os dias, pontualmente entre as 8 da manhã e as 8 da noite, cada hora é assinalada pelo sino da Igreja. Às três da tarde, por exemplo, três badaladas pairam por toda a Parede, num rumor repetitivo.

#02   O destaque recai, contudo, no assinalar do meio-dia e das duas diferentes oito horas, da manhã e da noite. Para além do correspondente número de badaladas, os sinos trauteiam a música dos três pastorinhos de Fátima. Deitado na cama do meu quarto, tal estertor sinfónico tinha em mim o poder cinético de me transportar a mais de 120 quilómetros e aproximar do meu tio e primas, cuja casa fica a poucos passos do local onde a tríade de videntes foi iluminada pela nossa senhora de Fátima.

Sonic Youth – Diamond Sea

#03   A minha prima mais velha é professora primária mas professa numa loja de santinhos. Vende figuras pequenas e grandes, velas grandes e pequenas, terços cujo tamanho não se vislumbra. Houve um dia que errava pela terra Santa e, por si iluminado, ouvi pela primeira vez uma das músicas da minha vida: ‘Diamond Sea’ de Sonic Youth. Fiquei rendido a tal caos sonoro. Onírico, de um momento para o outro transformava-se em contemplação divina. Aos 6 minutos e 17 segundos, o mesmo tempo que se leva de casa da minha prima ao santuário de Fátima, soam 10 badaladas que transportam qualquer um ao céu.

#04   Na última semana tenho ido ao jardim do Tourel, em Lisboa, ler o livro ‘Na Rua das Lojas Escuras’, do senhor Mondiano. Desconheço se o nobel francês se inspirou nas lojas de santinhos de Fátima para o título da sua obra. Na verdade, a terra santa é lugarejo propício a fenómenos estranhos e, não será de todo descabido cismar na possibilidade de que o senhor Mondiano, num dia a peregrinar pelo habitat de meu tio e primas, tivesse sido surpreendido por um apagão em determinada rua. Conhecendo tão boa música, a minha prima sabe com certeza.

#05   Se os pastorinhos de Fátima foram abençoados pelos olhos, eu, permitam-me a imodéstia, fui abençoado pelos ouvidos. Hoje, enquanto lia ‘Na Rua das Lojas Escuras’ no Jardim do Tourel, ouvi a onírica balada das 36 badaladas. Tão raro fenómeno acontece todos os meios-dia de cada dia como resultado da sinfonia cruzada dos sinos das Igrejas de São Roque, de São Domingos e de São José. Construa-se um santuário, é milagre!

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2 responses to “A balada das 36 badaladas

  1. Vivi na Parede quando era miúda. Andei na 31 de Janeiro. Entretanto, mudei-me para Tavira e tenho mesmo em frente uma Igreja. Sou brindada com os sinos, os funerais, os casamentos, as procissões, etc, etc, etc. Gostei muito desta crónica!

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