O pôr do sol em Riga

#01   O meu aniversário foi o tiro de partida para uma série de acontecimentos extraordinários! Para começar, coincidiu com o equinócio de outono. Este fenómeno (e estou a referir-me ao arranque da estação do ano) significa que noite e dia repartiram-se ao longo de 24 horas, ou seja, tiveram a mesma duração.

#02   A despeito do espectáculo preparado em minha honra, não posso confirmar se isso, de facto, se verificou. No dia de tal efeméride, assisti ao nascer do sol no Porto e ao pôr do sol em Vigo. Passo a explicar, este ano celebrei o meu trigésimo quarto aniversário em trânsito, entre a cidade invicta e a congénere galega. Separadas por cerca de 150 quilómetros e por um fuso horário (mais uma hora do lado de nuestros hermanos), a verdade é que saí de Portugal com 33 anos e entrei em Espanha com 34. Em Portugal, são assim os comboios. Em Espanha, qualquer português está no futuro.

#03   Passados quatro dias, outro fenómeno cósmico. Não, não voltei a fazer anos, mas tão somente assisti ao eclipse total da lua. O nosso planeta, metediço como é, intrometeu-se entre a lua e o sol, tendo ficado o satélite mais de três horas oculto na penumbra. Em simultâneo, veja-se lá o impacto do meu aniversário!, a lua, camaleónica como é, pintou-se de vermelho cor de ferrugem.

#04   Outro evento extraordinário prende-se com a confirmação da existência de água salgada em Marte. Tal descoberta significa que é possível haver vida no planeta vermelho. Dou por mim a pensar como será uma festa de aniversário de marcianos… Ainda para os lados do sistema solar, a cúpula da Estação Espacial Internacional recebeu uma instalação artística concebida por Vhils. Este laboratório, que se constitui como o único lugar onde é possível ver o planeta terra em toda a sua extensão, roda de tal forma sobre a terra que permite aos cosmonautas assistirem ao nascer e ao pôr do sol 16 vezes por dia.

#05   No primeiro dia de Outubro aterrei em Riga. Talvez por ser a minha primeira vez na Letónia, não fui recebido com fenómenos raros: o inverno eclipsou o outono. O frio encolheu os dias. Noite e dia já não se repartem iguais. O lusco-fusco antecipa-se. Tinha planeado visitar a Estação Espacial Internacional mas, afinal, não me apetece… Ficarei por casa à espera do pôr do sol. Parece-me a melhor altura para declamar a ‘literatura explicativa’ de Ruy Belo à lua.

o pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
é não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medici
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
há quanto tempo se põe o sol em espinho?
terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
o sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
o pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o põr-do-sol apenas pôr-do-sol

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4 responses to “O pôr do sol em Riga

  1. Just love your blog Pedro, the photos are awesome. I will be following it for interest in any older people you encounter in your travels as my blog is for Seniors around the world, not your average Boomer!

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