#1134

Em meados dos anos 80, Svetlana Aleksievitch, uma jornalista bielorussa (nascida na Ucrânia, em 1948), pediu um empréstimo de cinco mil rublos, quantia avultada para a época, tirou férias na revista para a qual trabalhava e comprou um gravador de cassetes. Com ele viajou pela União Soviética, de lés a lés, registando a memória oral de centenas de mulheres. […] ‘Interrogo não acerca do socialismo, mas acerca do amor, do ciúme, da infância, da velhice. Sobre a música, as danças, os penteados.’ […] Na sua maioria, os ‘heróis’ de Aleksievitch (chama-lhes assim, mesmo quando as suas histórias são tudo menos heroicas) revelam desapontamento, frustração ou raiva com o actual estado do país. Muitos porque nunca abandonaram a mundividência comunista e têm saudades da era que os moldou, outros porque criaram esperanças com a chegada da liberdade que nunca viram cumpridas, uma vez que à rigidez socialista sucedeu a lei da selva capitalista, com um abismo gigante entre os muito ricos e os muito pobres. […] Com Aleksievitch, sentamo-nos na cozinha, o lugar onde os russos discutem os assuntos sérios, e ficamos a ouvir, pasmados, o que ela em boa hora registou. Alguns dos interlocutores, levados pelo fluxo de palavras e histórias que, nalguns casos, nunca partilharam com ninguém, perguntam-lhe: ‘Vai escrever isto tudo?’ ‘De certeza que não vai riscar as minhas palavras?’ Ainda não está farta de me ouvir? Não? Diga… eu posso calar-me…’ Mas não se calam.

José Mário Silva, revista do semanário Expresso

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