#1144

Tenho uma mente muito associativa. Salto de um livro para outro, mas quero que todos convirjam. Acho que todos os leitores fazem isso em certa medida — fazem associações com o livro que estão a ler, mas numa ordem que não conseguem determinar com precisão, e que tem a ver com tonalidades, com o gosto e com a experiência do momento. […] Sempre acreditei que a literatura é um espelho que reflete a nossa própria experiência. Permite-nos encontrar num texto que foi escrito há vários séculos, do outro lado do mundo, por uma pessoa que se calhar é desconhecida, o que sentimos e o que pensamos. E isso é o que sempre achei incrivelmente surpreendente na literatura.
[…]
[Na cultura em que vivemos] tudo tem de ser rápido, fácil e superficial. Nada pode ser complicado. E depois queixamo-nos dos governos que temos e das coisas que estão a acontecer no mundo, mas a verdade é que estamos a flutuar sobre elas. Não estamos ancorados a nada, por causa dos obstáculos que criamos a nós próprios. […] A ‘curiosidade’ é a nossa força motora. […] É um impulso natural no ser humano. Como seres humanos, somos capazes de imaginar e experienciar as coisas antes de passarmos por elas. […] da mesma forma que a sociedade cria obstáculos que nos impedem de pensar e de levantar questões, também cria obstáculos à curiosidade. Todas as crianças nascem com uma curiosidade natural, que querem desenvolver, mas são impedidas de o fazer quando entram para a escola. Quando uma criança começa a perguntar coisas é-lhe dito “fica aí sentada e presta atenção”, e se é demasiado ativa — demasiado curiosa — dão-lhe um comprimido para se acalmar. Enquanto sociedade, temos medo da curiosidade. […] As escolas deviam ser locais onde a imaginação devia ser livre, e onde o cérebro devia ser capaz de se desenvolver. […] Mas as nossas sociedades forçam o sistema educativo a ser um sistema com objetivos, onde se diz ‘devias aprender isto para seres um melhor empregado, um melhor trabalhador, para poderes ser alguém útil num contexto específico’. […] O nosso sistema educativo é, atualmente, um sistema que não educa — treina. Existe um grande diferença entre as duas coisas. Treina as pessoas para serem escravas.

Alberto Manguel, observador

2 responses to “#1144

  1. Hi pedrol A society with freedom of mind not forms of mind control! Making people think as you want them to think. I agree with free will and an enquiring mind! Thank you for liking my poem “House-The Entry! Best Wishes. #TheFoureyedPoet.

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