shortcut #21: do pomar de Olav Hauge

as sementes sepultadas por Olav Hauge no seu pomar em Ulvik.
era no sabor dos frutos e na beleza das flores que reflectia enquanto te olhava a explicar.me a camisola que encolhera com o lavar da máquina: os meus pensamentos errando por uma álea de amoras, nos dedos sentia as uvas de um cacho, de outro cacho, de mais outro cacho, ao mesmo tempo que pelo nariz e pela boca pendulava – recíproco – o puro oxigénio de alfazema.
– nunca mais poderei vesti-la, está inutilizada… – dizias frustrada e eu a medir os centímetros que, díspares, despenteavam a relva, a ouvir com deleite o ciciar sinfónico de folhas pelo séquito do vento, a troçar o mais cosmopolita ramo de espiga, com malmequeres e papoilas e alecrim e ramos de oliveira e folhas de videira.
sem saber explicar a razão, dei comigo a cogitar na essência do ser humano, no ciclo de uma vida. a semente. o cordão umbilical. o crescimento. a reprodução. o decrescimento. a morte. o legado.
estaquei pois assustado com a possibilidade da alma de um pecador se transferir para a raiz de uma planta, reencarnando-a daninha.
– …e cause estragos no pomar de Hauge… – murmurei.
– pior que estragada, inutilizada! – respondeste.
cismo perante o pesadelo de cinzas: pomar infértil, estéril, infrutuoso. inútil. tranco os olhos ao meu redor. bruma. medito e peço e espero.
senhor Hauge – questiona a esperança -, em Ulvik, porventura, haverá um campo de algodão que seja imune às ervas daninhas?

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