#1215

A passagem de Nicólas Muller [fotógrafo húngaro] por Portugal no final dos anos 1930 foi meteórica. Não deve ter ultrapassado os dois meses. […] Passou por Coimbra, Porto, Guimarães, Meadela, Barcelos e Póvoa do Varzim. Captou fotografias de trabalho braçal, crianças descalças, circos de rua, homens esfarrapados, rostos marcados e mulheres, muitas mulheres. Captou imagens com o máximo de ‘fidelidade notarial’, qualidade que, para uns, podia ser o feito mínimo desejável, mas, para outros, uma viagem demasiado crua e perigosa da realidade.

[…] Depois de acabar os estudos na Hungria em Direito e Ciências Políticas a vida de Muller transforma-se numa sucessão de destinos sem paragem garantida ou estabilidade a curto prazo. […] Com a tarimba da agenda quotidiana aprende a manejar com destreza uma Rolleiflex com películas de formato quadrado, que acabariam por acompanhá-lo em boa parte da sua actividade como fotógrafo. […] Com o primo, comerciante de tecidos, viajou pela França fotografando em várias localidades para depois mostrar trabalho às publicações parisienses. Quando Nicólas Muller recebeu a visita da namorada na Cidade Luz, o pintor húngaro Árpád Szenes, casado com a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, emprestou-lhe um chalet com a condição de que tomassem conta de um gato. Correu tudo bem até Margaret regressar à Hungria e o gato fugir. Ao que conta Muller, os ratos tomaram conta do chalet e o fotógrafo alugou um apartamento. Desconhece-se se houve um raspanete do casal Szenes/Vieira da Silva.

Sérgio B. Gomes, Ípsilon

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