dj sessions #128

Os Parkinsons tornaram-se numa das bandas mais famosas de Londres. Os seus concertos estavam superlotados, chegavam a vender-se bilhetes por fortunas no mercado negro, faziam primeiras páginas na imprensa musical, mereceram artigos nos jornais de referência, eram perseguidos por promotores, agentes e editores, provocavam a inveja e tentativas de imitação de todas as bandas britânicas, andavam na boca de toda a gente. Ninguém percebe como é que isto aconteceu, e de forma tão rápida e descontrolada.

[…] ‘Quem tem paixão pela arte é nómada’, explica agora Victor, sentado com Pedro no café Académico, na Praça da República em Coimbra. ‘Eu sempre quis sair daqui, conhecer outros sítios. Londres era o sítio óbvio para onde ir. Era a capital do rock, do punk’. […] Londres era também para Victor e Pedro uma cidade imaginária. Os clubes, as bandas punk, os concertos dos Sex Pistols, dos Clash, era a energia, a crueza, a autenticidade desse mundo que os atraía.

[…] Durante seis meses, não conseguiram um concerto, mas construíram uma reputação que os levaria longe. […] ‘Sentíamos uma energia imparável, diz Pedro. ‘Dançávamos, despíamo-nos, atirávamos coisas, mordíamos os pés das pessoas…’ descreve Victor. […] Viviam em dois quartos de uma espelunca em Queens Crescent, Kentish Town, a mais degradada zona de Camden, dormindo dois em cada cama. Alugaram o tugúrio por 20 libras semanais a John Weeks, um velho alcoólico e toxicodependente que conheceram no Marathon, uma das piores catacumbas de Londres.

[…] A casa tinha latas vazias e queimadas pelo chão, seringas usadas nas gavetas. ‘A sala, onde Weeks dormia, parecia uma instalação de arte contemporânea’, diz Victor. Viviam ali porque não tinham dinheiro para mais. […] Não foi a música, mas a reputação de mau comportamento que os levou até ali. Mas quando o primeiro concerto foi visto por agentes e promotores de espectáculos, a carreira dos Parkinsons levantou voo.

[…] Em pouco tempo, tornaram-se numa das bandas mais conhecidas, pelos melhores e os piores motivos. Quem assistia aos concertos vinha contar coisas incríveis, façanhas e prodígios dignos dos melhores anos dos Sex Pistols. A lenda passava de boca em boca. Eles lançavam cerveja e objectos sobre o público, destruíam os instrumentos e o equipamento, e principalmente despiam-se por completo, em estrebuchos demenciais. E o público fazia o mesmo.

[…] Ninguém percebia como e de onde tinham surgido aqueles loucos. O facto de serem portugueses acirrava ainda mais o fascínio dos jovens londrinos, que se viam transportados para os anos mais alucinados do movimento punk. ‘Os Parkinsons são a experiência mais próxima que se pode ter de um dos concertos iniciais dos Sex Pistols, nos anos 70’, escreveu um jornal.

[…] ‘Eram realmente perigosos. Afonso estava sempre a rodar o microfone, e nunca se sabia para onde o iria atirar. Era preciso ter cuidado. Algumas pessoas colocavam-se à distância, com medo. Sentia-se o misto de medo e excitação que uma criança experimente ao ver um filme de terror. Eles atiravam permanentemente cerveja para cima das pessoas. Isso fazia com que se consumisse muita cerveja, o que agradava aos proprietários dos clubes. Ao mesmo tempo temiam pelos estragos, porque Afonso e Victor partiam coisas, agarravam-se aos holofotes, que por vezes explodiam’ [diz Caroline Richards, fotógrafa e realizadora de documentário sobra a banda].

[…] Os telefones nunca mais pararam de tocar. Eram convites para concertos, para tournées. Uma delas no Japão, que seria a maior que jamais realizada por uma banda ocidental. Os jornais faziam títulos delirantes. ‘Vão vê-los, antes que sejam presos!’, dizia um. […] A lenda agigantou-se. O êxito foi mais rápido do que a capacidade de o assimilar, e os problemas começaram por aí. No próprio interior da banda.

Paulo Moura, jornal Público

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