#1265

Tudo depende de como estiver o tempo. Se chover, a visita ao cemitério pode ser rápida, o tempo necessário para acender uma vela, deixar umas flores, talvez trocar algumas palavras com alguém que não se via há muito tempo e que, por ser 1 de Novembro, também estará por ali hoje. Se não chover, é possível que se fique mais tempo. […] Quando era miúda, o Dia dos Mortos era uma espécie de aventura, um dia louco em que as crianças podiam ficar no cemitério até ser noite e correr por ali, à procura dos amigos da escola que também lá estavam, no meio de um ambiente impregnado de fumo, cheiro a cera queimada e uma lengalenga de rezas quando começava a missa que ali era celebrada. Hoje, já quase não cheira a cera nos cemitérios. As velas modernizaram-se, as velhas lamparinas de barro desapareceram, substituídas por tubos coloridos de plástico, e os mortos que já nos pesam retiraram o carácter infantil de aventura ao Dia dos Mortos. Hoje queremos não ter de ir ali e, se tiver mesmo de ser, ao menos que chova, para termos a desculpa de poder ficar por pouco tempo.

Patrícia Carvalho, jornal Público

One response to “#1265

  1. Nossa, eu nunca gostei de ir a cemitérios nos dias dos mortos. Me dava pena daquela gente viva que se obrigava a estar ali e os mortos longe. rs
    Hoje, visito cemitérios quando quero um pouco de paz. rs
    Não tente entender.
    bacio

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