#1289

Não sei bem com que idade comecei a ser o escrevedor de cartas da minha avó. […] As cartas […] são ou foram, por milénios, um património de todos: comerciantes e enamorados, enclaustrados e viandantes, poderosos e humílimos, irrazoáveis e proféticos, letrados e analfabetos. […] Pela vida fora tenho procurado preservar nessa escrita do quotidiano, com grande proveito para mim, pois possuo uma quantidade preciosa de histórias associadas a cartas. […] A troca epistolar […] é uma abertura de mundos que acontece, como sempre acontece quando essa é uma prática verdadeira, de maneira livre, lenta, imprevisível e secreta. Uma das coisas que aprendi foi que uma carta começa pelo envelope, pelo selo, pelo papel e que essa materialidade (escolhida, retrabalhada) participa desse encontro sem palavras que uma carta pode significar. Podemos habitar a mesma cidade ou a mesma vida e guardamos para as cartas aquela porção de real, de confidência ou de desejo que depende desse assombroso idioma que só as cartas falam.

José Tolentino Mendonça, revista do semanário Expresso

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