shortcut #37: da mancha

caro leitor, sê bem-vindo! esta página está a ser escrita à medida que a lês. é verdade, caso fosse ignorada ou passada à frente, tal trecho seria como que nada: um vazio, um buraco, um intervalo de livro, intermitência de vida. a leitura que fazes destas palavras mantém-na, contudo, viva. o acto de ler como o de bombear o sangue que estimula um corpo, compreendes a analogia? a sua prossecução implica aceitar a página como um jogo: sendo tu a razão de ser desta página, a sua existência depende única e exclusivamente de ti. enquanto a leres, ela existe! peço então que te acerques. aproxima-te desta página escrita em teu proveito. vá, não receies um rectângulo de papel. entende esta página como um espelho que te reflecte: aos teus pensamentos; às tuas ideias; às tuas reflexões; às tuas opiniões; aos teus medos; às tuas indecisões; inclusive ao teu hálito. por conseguinte, caso te descubras mascarado em papel higiénico com tripla folha, a trepar uma árvore com um texugo às costas ou a conduzir um hidroavião numa auto-estrada de gelo, assume-te como o herdeiro das suas consequências. se és suficientemente forte para seguir a leitura desta página, és igualmente responsável pelos próprios actos! mas por ora, em vez de tanto tagarelar, explica-me: quem és tu e como cá chegaste? vieste por espontânea vontade ou para escoltar alguém? qual o teu objectivo? por ventura, um castigo por cumprir?, um desafio assumido inconscientemente em noite de bebedice?, a procura de perguntas para as respostas que os demais aceitam cegamente como universais? será por identificação com o escriba? também tu, tal como eu, pensas cerrar as janelas, quando tens ideias que não admites que se dispersem com correntes de ar? talvez queiras imitar-me a enfrentar precipícios, quando corro movido por um extenso balanço e travo-me no ápice do derradeiro centímetro. na minha ingenuidade, apespinho-me na hipótese de te quereres conhecer melhor, testar os teus limites. estarei certo? pois então, segura em três canetas de cores diferentes à mesma distância de uma folha em branco e lê o que te salpica a alma. desordena frases, corrige rabiscos, engenha novas palavras! caso seja necessário, deletrea outros escribas, aventura-te num inter-rail com paragem em Antuérpia seguindo os poemas-carris do Herberto Helder; aventura-te num inter-rail com paragem em Antuérpia seguindo os poemas-carris do Herberto Helder; cria as condições para a constante reprodução de uma colónia de baratas que entretenham os gatos da Adília Lopes; cria as condições para a constante reprodução de uma colónia de baratas que entretenham os gatos da Adília Lopes; acompanha a emissão da missa na rádio lado a lado com o volume de poesia completa do Daniel Faria; acompanha a emissão da missa na rádio lado a lado com o volume de poesia completa do Daniel Faria! desde já, posso aventar que simpatizas com a arte do versejar. como sei? porque leste em duplicado as passagens referentes aos poetas. aposto que leste cada frase com um olho diferente. admite, o olho esquerdo dirigiste às frases ímpares, enquanto que o seu gémeo esquerdo encaminhaste às pares. quero dizer, o direito, o olho direito!, esse encaminhaste às passagens ímpares! arre! às pares, o olho direito endereçaste às frases pares, porra! que outros hábitos tens? o de falsificar os autógrafos de jogadores de futebol americano? o de imitar as vozes de apresentadores da rúbrica televisiva da metereologia? agora que nos vamos conhecendo melhor, estou convencido de que és o tipo de gajo que enche uma garrafa com água das diferentes torneiras de casa. com efeito, todo este doentio hábito tornou-se num minucioso processo desenvolvido e testado ao longo dos anos: começas por preencher a vasilha de plástico com água da torneira do bidé, a que se seguem, primeiro, três colheres de sopa com água proveniente da canalização da cozinha e, segundo, a mesma quantidade de colherzinhas mas de sobremesa com a água da torneira do tanque. finalmente, locupletas a garrafa com o precioso líquido oriundo do bebedouro principal da casa-de-banho. e, já agora, podes explicar o teu capricho com gravadores?? porque razão as tuas gavetas de cabeceira têm dezenas de aparelhos com gravações do quotidiano da rua? num gravaste os sons do autocarro, noutro quatorze horas seguidas na praia, ainda noutro a subires as escadas rolantes de um centro comercial… deves admitir, é bizarro! (através de uma técnica dramatúrgica que desconheço o nome, passei assim do interior de casa para o exterior, local-palco de algumas das tuas mais belas aventuras). questiono-me se sais à rua diariamente mas aposto que o fazes somente quando te sentes confiante. naqueles raros dias em que, assoberbado pela concretização de um objectivo menor, consideras pertinente mostrar a tua felicidade aos transeuntes, por acreditares teres bastante a dizer, a acrescentar aos outros, os quais, na realidade, tanto se lhes dá a tua existência e, pois claro, desprezam qualquer notificação relacionada com a tua pessoa. nesses mesmos dias, ensaias aproximar-te a vizinhos, à senhora da frutaria que repetidamente desprezas e até às crianças que, dia-sim dia-sim, amaldiçoas pelo barulho que, sem maldade, fazem a jogar à bola. caminhas como um gabarola, fazes questão de te mostrar sorridente e atento, caindo no ridículo de acreditares na projecção da tua imagem sobre os demais, tendo em conta as próprias conjecturas, romantizada claro está. ‘vou atravessar a rua para seguir pelo passeio onde se encontra um bebedolas a mendigar, ao qual lançarei a menos valorosa nota, o que fará com que os transeuntes pensem – ali vai um homem bem sucedido na vida, um engenheiro, por certo um doutor!, provavelmente neurocirurgião, pela forma tão recta de se deslocar e por sorrir com tão saudáveis dentes. eis um benfeitor, um ser humano modelo, que não se coíbe de partilhar o resultado do seu sucesso com os mais pobres entre os mais pobres’. e como dás graças à existência destes infelizes, tão altruísta te permitem sentir. auto-convencido da tua eminente figura – fantasiada e, como tal, falsa -, deambulas então ainda mais insolente, nos píncaros de uma coragem que te cega e conduz iludido. como resultado deste processo, transitas de andar para desfilar e de desfilar para flutuar! forças as pálpebras e, de olhos semicerrados, imaginas o som de aplausos e urros orgásmicos em teu nome. – CHÉ BRRRUUUUUM!! BRUM BRUM!! por pouco tempo: subitamente dás por ti uns quilómetros afastado de casa, andaste demais e… estás perdido! estacas em pânico! e é perdido que qualquer homem como tu se amedontra, fora da sua área de conforto, longe das próprias fezes. nesta zona que não dominas, em que és apenas mais um, vulgo desconhecido, nem sequer os miseráveis pedem a tua esmola, quanto mais as árvores te concedem sombra. saracoteias-te em esforço no caminho de volta ao teu pequeno e claustrofóbico mundo. aqueles 600 metros quadrados em que a tua escória se mistura com a dos vizinhos (o idoso das cólicas renais do quinto C, o elefante doméstico da cave direita, a puta que tropeça no último degrau da escada do prédio) numa canalização pré-soviética. ei!, calma, porque te afastas? não te identificas no que lês? pois então discordas de como te pinto… se és diferente, tens a oportunidade de exibir as contra-provas. vá, força! estou à espera! sentado e deitado. porque não te oiço?? porque não falas? não há mal em responderes a uma página! afinal de contas, ela existe porque lhe deste vida ao lê-la, ou já te esqueceste? ok, reparo que os teus lábios finalmente se agitam. estás a responder-me mas eu não te oiço. fala como um homem! continuo sem ouvir-te! achas que podes desenhar uma orelha no topo da página e falar para ela se faz favor? traça-a a caneta, o grafite apaga-se com facilidade! voilá, obrigado! não, eu não sou uma criatura cruel, (para usar a expressão com que me defines). pelo contrário, considero-me pungente, directo, um analista do dia-a-dia que observa e imprime no papel as mais cuidadas análises sociais. por vezes, assumo, omito o barbear para me dedicar à observação dos que aguardam na gare do comboio. outras, não me deito à espera que se desliguem as luzes da avenida perpendicular à rua que faz esquina com o beco onde moro. e há ainda aqueles momentos – raros, adjectivo -, em que escrevo cartas ao acaso. por exemplo, a coincidir com as celebrações do meu nascimento, envio dois dias antes uma missiva com o seguinte conteúdo: ‘desejo-lhe um excelente dia do meu aniversário!’. não recebi nunca qualquer resposta… ou prenda. o desprezo que as pessoas me votam é injusto, injustificável, mas o hábito moldou-me a sensibilidade. hoje deixei de chorar, de me esconder no canto da sala, junto à teia de aranha que impede a formação de humidade. há tempos atrás, encontrava-me equipado de todos os sentidos, tão depurados quanto apurados. contudo, ao revelar-se-me madrasta, a vida dotou-me mudo e quedo. e escrever é, actualmente, a minha única forma de comunicar. contudo, não peço compaixão, nem sequer atenção. continuo a ter transeuntes para observar, luminárias para controlar, cartas para escrever. pelos vistos, neste momento, um leitor que prossegue a leitura desta página, longe da sua zona de conforto. pois bem, permite-me esclarecer: porque segues esta algazarra? que te seja erguida a estátua da preserverança! que te seja exaltada a firmeza e a constância e a solidez. que ganhes prémios e glória! és corajoso e, sem precedentes, um verdadeiro caso de estudo: aceita o meu conselho, segue até ao departamento de psiquiatria do hospital da tua residência e pede para ser chamado o gato que procura par para valsar. vá, vai lá! tal como te disse, o prazo de validade desta página dura até que a abandones. e eu abandonei-me. é complicado enfrentar a própria realidade, não é?

duty of response

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